quinta-feira, 30 de julho de 2026

Um século de trabalho em Solesmes - 1ª Parte: O Canto Ambrosiano - Dom Jean Claire OSB

Na opinião de Monsenhor Alberto Turco, o artigo Un secolo di lavoro a Solesmes, da autoria do frade beneditino Dom Jean Claire e publicado em Studi GregorianiVolume XVI (16), ano 2000,  pp.7-51, é a publicação gregorianística mais relevante para a actualidade, e deveria ser traduzido em todas as línguas. Segue-se, portanto, a tradução portuguesa.

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Cada mudança de século convida a fazer um balanço do movimento das ideias em diferentes âmbitos e a apresentar pelo menos a lista, brevemente comentada, de quanto foi produzido. É uma espécie de "acta" referente ao canto litúrgico que foi solicitada àquele que foi mestre de coro de Solesmes durante o último quartel do século XX, com a obrigação não leve de ter de falar em certos momentos de si mesmo como se se tratasse de outra pessoa: possa tal acontecer com igual objectividade!

Em vez de seguir estritamente a cronologia a modo de diário do século XX, ano a ano ou década a década, o que obrigaria a voltar várias vezes ao mesmo assunto, proponho estudar cada um deles de uma só vez. Isto trará a vantagem de pôr melhor em evidência os desenvolvimentos de alguns ao longo de um século, e as fases de estagnação sofridas por outros durante o mesmo período. A cronologia recuperará os seus direitos na ordem de apresentação dos seguintes assuntos, tomados um a um:

1900: o canto ambrosiano;
1904: a Edição Vaticana, o Antifonário Monástico, a edição crítica do Gradual;
1907: Le Nombre musical grégorien; os sinais rítmicos; saber ler e compreender;
1911: a Revue grégorienne, as outras publicações;
1950: o canto romano.

O CANTO AMBROSIANO

O primeiro acontecimento que marcou em Solesmes o início do século XX foi a conclusão da publicação dos volumes V e VI da Paléographie musicale, consagrados ao canto ambrosiano (1896-1900), ocorrida na celebração do XV centenário da morte de Santo Ambrósio. Dom Mocquereau tinha consciência de abrir assim à musicologia religiosa uma verdadeira "catacumba", à maneira das catacumbas romanas redescobertas e investigadas a fundo por De Rossi na segunda metade do século XIX. Para tal fim, Dom Paul Cagin (1847-1923) passou numerosas temporadas de estudo na Itália, inaugurando entre Milão e Solesmes relações mais do que amigáveis, praticamente nunca interrompidas.

O volume V comtemplava um amplo prefácio de 188 páginas de dom Cagin, seguido de uma Tabela metodológica de dom Gabriel Tissot, que expunha a posteriori o plano que o autor deveria seguir para oferecer um contexto compreensível às suas principais elaborações. Seguia-se a reprodução fototípica das 269 páginas do manuscrito notado mais antigo do canto ambrosiano: London, British Library, Add. 34 209 (séc. XII), apenas pars hiemalis, do Advento à Páscoa. O VI volume compreendia 26 páginas de prefácio do mesmo dom Cagin, que descreviam a missa e o ofício ambrosianos, bem como a transcrição do manuscrito em notas quadradas a cargo de dom Mégret.

Os anos seguintes à publicação foram cheios de acontecimentos: expulsão definitiva dos monges de Solesmes, confisco dos seus bens, o que levou à ruína da tipografia em pleno desenvolvimento. Pouco tempo depois, a eleição de S. Pio X e a sua decisão de dar a toda a Igreja uma edição do canto gregoriano construída a partir dos trabalhos de Solesmes depois de dom Guéranger. Era o suficiente para distrair a atenção do canto ambrosiano, e a exploração da catacumba foi igualmente retardada.

Como se colocava, na época, a questão das relações históricas entre os dois repertórios, ambrosiano e gregoriano, que possuíam em comum uma enorme quantidade de textos com melodias comparáveis, tanto da missa como do ofício, no conjunto mais de metade? Deve dizer-se: colocava-se de modo algo simplista, sob uma falsa aparência de evidência matemática. Todos admitiam, com alguma nuance, que o canto ambrosiano fosse, se não de S. Ambrósio, pelo menos do século IV, e o canto gregoriano, se não de S. Gregório, pelo menos do VI. A prioridade de dois séculos do ambrosiano sobre o gregoriano resolvia, portanto, o problema facilmente: metade do repertório gregoriano era de origem ambrosiana.

A promoção, em 1929, de dom Schuster, abade de São Paulo Fora de Muros, à sé episcopal de Milão, fez evoluir rapidamente a situação. Já a partir de 1930, encarregou os monges de Maria-Laach de preparar uma edição “científica” do breviário ambrosiano. Em 1939, o p. Odilo Heiming anunciou os primeiros resultados, obtidos após o exame das variantes entre o saltério romano e o saltério ambrosiano: «Um grande número de textos comuns a Roma e a Milão mostram com segurança Roma como a sua pátria, com o seu texto certamente romano mesmo em território milanês, ao passo que nem um único destes textos comuns joga a favor de Milão. Sendo assim, devemos afirmar sem hesitação que todos os trechos que se encontram tanto em Roma como em Milão devem a sua existência ao génio romano, mesmo os trechos cujo texto é neutro» (ou seja, sem variante característica).

Malgrado tal veredito, que varria todas as ilusões do passado, ter sido expresso em italiano na revista oficial do rito ambrosiano Ambrosius 1939, p. 65, todos ou quase todos fizeram ouvidos de mercador; apenas alguns liturgistas aderiram a ele, mas sem terem com que tirar as consequências de tais premissas renovadas. Por outro lado, tal como em 1900, no momento da edição de metade do repertório ambrosiano, os acontecimentos de 1939 desviaram a atenção, e a catacumba, mais uma vez, conservou os seus segredos.

Em 1955 foi nomeado novo presidente do Pontifício Instituto Ambrosiano de Música Sacra o Monsenhor E.T. Moneta Caglio, a quem certamente não faltavam qualidades, entre as quais se destacava uma extraordinária perseverança em sustentar as suas ideias pessoais: em suma, durante os quarenta anos em que permaneceu no cargo, até à sua morte ocorrida em 1995, esforçou-se para que o problema não voltasse a ser levantado.

No entanto, em 1956 apareceu um importante estudo intitulado Fonti e paleografia del canto ambrosiano (Archivio ambrosiano VII), que dificilmente podia evitar a questão e aproveitou para a aprofundá-la, perguntando-se se os trechos comuns se assemelhavam, na sua versão ambrosiana, ao canto gregoriano ou ao canto romano antigo. Michel Huglo, que conduzia a investigação, concluía com tanta certeza quanto o P. Odilo Heiming em 1939: «A arquitetura dos cantos ambrosianos está muito mais próxima do gregoriano do que do romano antigo» (p. 129), e isto fornecia a data das importações das peças romanas, que não podiam ser anteriores aos tempos carolíngios. Fazendo depois uma discreta alusão às resistências inspiradas pelo «espírito bairrista», continuava: «Quer se queira quer não, a semelhança entre gregoriano e milanês está suficientemente demonstrada...». Isto, porém, não impediu o Presidente, no ano seguinte, no II Congresso Internacional de Música Sacra em Paris, de declarar, não tendo sido nunca publicado o trabalho de Maria-Laach: «torna-se impossível, de momento, uma avaliação crítica».

Entretanto, as melodias mais antigas (salmodias, timbres antifónicos, etc.) vinham sendo publicadas cuidadosamente, segundo os manuscritos primitivos, por dom Alberto Turco.

Aproximava-se o XVI centenário da morte de S. Ambrósio. Solesmes decidiu publicar um outro manuscrito de canto ambrosiano, o de Muggiasca, completo para a liturgia e preciso para a música. No Congresso Internacional de canto ambrosiano, convocado em outubro de 1997 pelo novo Presidente, Mons. Natale Ghiglione, tive finalmente a oportunidade de apresentar o resultado, longamente amadurecido, do trabalho de Solesmes durante todo o séc. XX, e de mostrar na sua fresca sobriedade a liturgia ambrosiana como ela era antes dos acréscimos gregorianos dos séculos VIII-IX:

três missas do Advento,

uma única missa de Natal, 

arcaísmos para a Epifania, 

três semanas de Quaresma, com liturgia eucarística apenas aos sábados e domingos, mas cada dia com uma liturgia da Palavra para a formação dos catecúmenos (adultos), 

um tempo pascal bastante despojado, 

a Ascensão apenas distinta do Pentecostes, 

após o Pentecostes, um vazio litúrgico de seis meses até ao Advento.

Por mais inesperado que fosse este resultado, ele concorda contudo em muitos pontos com as observações feitas sobre os antigos documentos galicanos (Missal de Bobbio), beneventanos, hispânicos.

Isto quanto à liturgia.

Quanto às formas musicais identificadas neste restrito repertório (um único canto, em absoluto, nos domingos de Quaresma: o Cantus!), estas apresentam nada menos do que nove timbres, diferentes e independentes, de salmodia in directum para a Quaresma, contra apenas dois no romano-gregoriano, os tratos do 8.º e do 2.º modo. Nas antífonas havia uma maioria em Protus e em Tetrardus, modos primitivos e fortes, contra uma pequena minoria em Deuterus e Tritus, modos derivados e fracos.

Dado que os livros práticos (Antiphonale missarum e Vesperale) editados por dom Sunyol em 1935 e em 1939 estavam esgotados, o cardeal Martini pediu à Congregação para o Culto Divino se não seria oportuna uma nova edição na qual figurasse apenas canto ambrosiano autêntiuco. O projecto recebe grande encorajamento, de modo que hoje o primeiro volume está em fase de conclusão. [Nota de Rodapé: Trata-se do Antiphonale Missarum Simplex iuxta ritum Ecclesiae Mediolanensis, Mediolanum MMI, entretanto publicado.] O projecto torna, ao mesmo tempo, evidentemente necessário extrair do ofício o que falta para a missa; contudo, no ambrosiano, o estilo do ofício está muito mais próximo do da missa do que no gregoriano.

É a partir de tais livros, completados pelos manuscritos para a parte do repertório que não contêm, que será agora possível estudar de modo autêntico a rítmica, a estética e a modalidade do canto ambrosiano “reencontrado”.

[Fim da 1ª Parte]

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