sábado, 21 de junho de 2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Comentário a "O Pentecostes da música: Para além dos catálogos", de Alfredo Teixeira

Exm.º Sr. Alfredo Teixeira (p.f. perdoe-me se desconheço o seu título académico),

Muito obrigado pela reflexão que fez sobre a música sacra no artigo "O Pentecostes da música: Para além dos catálogos" no sítio do SNPC. Gostaria, se me permite, de partilhar algumas reflexões sobre a mesma matéria da "música sacra", que certamente não alcançam a profundidade das suas palavras, mas antes tentam desabafar o que tenho sentido, enquanto amador que sou desta arte, e principiante no ministério de director coral litúrgico católico. No referido artigo, e perdoe-me se o interpreto mal, pareceu-me relativizar a distinção entre música sacra e música litúrgica. É certo que quanto mais cultura adquirimos (e mais do que eu a terá, pois citou inúmeros autores e movimentos que, confesso, desconheço completamente), mais tendemos nós, dizia, a relativizar os argumentos extremados que se esgrimem no campo sobre o qual nos debruçamos, e talvez por essa razão o meu sentir sobre este assunto seja de que realmente faz sentido fazer uma clara distinção entre a música sacra e a que o não é, e no seio da Igreja principalmente distinguir o que é música sacra em sentido lato do que é música litúrgica em sentido estrito. Permita-me, então, agrupar alguns pensamentos em palavras-chave que caracterizariam a música litúrgica católica e a distinguiriam das demais formas musicais.

MAGISTÉRIO
O Magistério da Igreja distingue clara e repetidamente o que seja a música sacra e a música litúrgica. O Papa Pio XII na sua encíclica Musicae Sacrae Disciplina (1955) é especialmente claro nesta matéria. Por música sacra poderíamos entender toda a música que de algum modo facilita ao homem uma dimensão religiosa ou transcendente, e portanto nela incluiríamos não só a musica litúrgica (católica romana, doutros ritos católicos e não católicos, e até doutras religiões) mas também a música dita "popular" religiosa, cristã ou não, e, já agora, incluiria eu também qualquer outra forma musical desde que lícita ao homem e não pecaminosa, porque afinal não será verdade que "tudo aproveita ao justo"? Já na música litúrgica incluiríamos somente aquele reportório que seria digno de integrar a Liturgia por possuir aquelas propriedades que adiante tentarei expôr. Ainda acerca da dimensão magisterial que na visão duma alma facilmente escandalizável talvez pudesse permear mais intensamente a vivência musical na nossa Igreja (dentro ou fora da Liturgia), gostaria de referir também que o Magistério é unânime em preferir o canto gregoriano bem como a polifonia da Renascença como as formas mais perfeitas de música litúrgica (no rito romano), e também, por extensão, da música sacra, uma vez que a Liturgia é a forma mais perfeita de união com Deus. A este respeito, deixe-me referir alguns factos prácticos que tenho observado e me têm gerado alguma perplexidade. Quantos padres, seminaristas, directores corais ou salmistas principais em Portugal conhecem a existência de um livro oficial emitido pela Santa Sé com os textos e melodias para cada parte da Missa no rito romano, livro esse que dá pelo nome de Graduale Romanum, e que teve a sua última edição em 1974, edição essa que, para todos os efeitos litúrgicos, é típica e está ainda hoje em vigor? Quantas destas pessoas com responsabilidade sabem que em 1974 o Papa Paulo VI mandou publicar um livretezito com os cânticos gregorianos mínimos que todas as paróquias de rito romano deveriam preservar na sua vida litúrgica? E quantos em Portugal conhecem pelo menos o nome de um compositor Português de polifonia da Renascença? E o seu reportório, que é nosso património cultural e espiritual, que reflecte a importância que foi sendo dada no passado às várias festas e momentos litúrgicos nas nossas dioceses, e diga-se a bem da verdade é mais amado por algumas comunidades estrangeiras, que o usam efectivamente na sua práctica litúrgica, do que por nós, que mais naturalmente poderíamos considerá-lo como nosso? Nestes aspectos, nem que fosse só por obediência ao Magistério, faria sentido recuperar a distinção entre música sacra latu sensu e música litúrgica strictu sensu nas nossas comunidades e trazer à vida este valiosíssimo reportório litúrgico, hoje ostracizado das nossas Igrejas, e não serem só os músicos profanos, muitos deles pagãos, a fazerem-no, no contexto de espectáculos de entretenimento.

VERBO
A verdadeira música litúrgica possui outra propriedade, como seja a enorme ligação ao texto sagrado, à Palavra de Deus revelada. É impressionante o respeito que principalmente as peças gregorianas dos próprios de cada Missa têm pela Palavra de Deus. O texto é quase sempre bíblico, e as poucas excepções (p.ex. sequências, hinos, etc.) são rigorosamente seleccionadas, pela sua antiguidade, densidade doutrinal, e perfeição poética. Para além disso, nos textos litúrgicos as palavras praticamente nunca se repetem (ao contrário por exemplo do que acontece na polifonia posterior), o que denota novamente a escrupulosa obediência ao texto. Ademais, o compositor gregoriano toma o cuidado de expressar na sua notação a articulação das consoantes, de modo a permitir a maior inteligibilidade do texto por parte de quem o ouve, mas mais importante do que isso, ele por vezes selecciona e junta ou acrescenta palavras ao texto, num processo chamado de centonização, que permite retirar do texto sagrado dimensões espirituais a uma primeira leitura inexistentes. O próprio tratamento musical de cada texto, palavra e sílaba, é fruto de uma longa e respeitosa "ruminatio" da Palavra de Deus, interpretação essa considerada ortodoxa ao longo dos séculos pela Igreja que perpetuou esses cânticos nos seus códices litúrgicos, sempre nos mesmos momentos litúrgicos. Neste aspecto, lembro-me da máxima "lex orandis lex credendis", i.e. a música litúrgica é fonte de doutrina, e pergunto: quantos teólogos bíblicos e exegetas examinam o canto gregoriano e a interpretação que ele dá da Palavra de Deus para fundamentarem as suas reflexões?

OFERTÓRIO
Na minha opinião, a música litúrgica não deve ser vista como um simples "catálogo" de variadíssimas expressões musicais devocionais dos vários povos nos seus contextos histórico e cultural, e intransmissíveis fora deles: ela é, na minha opinião, primeiramente, ofertorial, i.e. uma oferta a Deus, sob a forma de música, e neste sentido é necessariamente deocêntrica e transcendente, o que se traduz na práctica por não ser absolutamente relevante qual a língua utilizada para cantar, porque Deus entende qualquer uma. Não que a dimensão catequética da música litúrgica não seja importante para o povo fiel, mas o que é mais importante é o 1º Mandamento do Decálogo, é que o sacrifício seja agradável a Deus, e primeiramente quanto à alma de quem canta, e depois, claro, quanto ao texto, o que nos faz regressar à primazia dada à Palavra de Deus, que é inspirada pelo Espírito Santo e é aquela pela qual nós com maior segurança dirigimos a nossa oração ao Pai.

INSPIRAÇÃO
Em relação à forma musical, e sem alongarmos com muitos tecnicismos que tão-pouco domino, gostaria de dizer que há relatos de melodias inspiradas a Santos em arrebates místicos, e há ainda vários especialistas na matéria que defendem para algumas melodias gregorianas uma origem na música da sinagoga judaica. Sendo isto verdade, dificilmente sustentaremos que em Liturgia tanto vale uma música como outra, ou que a música sacra teria uma origem profana.

CONVERSÃO
O canto gregoriano exige da parte do cantor grande obediência, porque os cânticos para cada momento litúrgico já estão todos escrupulosamente escolhidos, e porque a própria notação informa sobre o modo de cantar. Exige notas rápidas quando nós teríamos preguiça, e notas lentas onde poderíamos ser mais precipitados. No fundo, que se transmitam os sentimentos correctos de acordo com o momento litúrgico, o que sem dúvida é uma forma de conversão, de contrariação dos espíritos. Exige obediência, por exemplo nas antífonas processionais, na duração do canto, para que se cantem mais ou menos versículos enquanto dura o cortejo de entrada ou da comunhão. E para não falar da obediência que exige no aspecto coral, com o respeito pela direcção do maestro e pela sintonia e sincronia de todas as vozes, e pelo tom cantado pelo celebrante, o que é evidentemente simbólico e alegórico da Igreja. E não é só caminho de conversão para os cantores, mas também, e principalmente, para os ouvintes na assembleia. Bento XVI num discurso aos cantores litúrgicos em 2012 analisou dois casos célebres de indivíduos para cuja conversão a música litúrgica foi essencial: Santo Agostinho de Hipona e Paulo Claudel. Na minha mísera experiência, atesto que as formas clássicas da música litúrgica, o canto gregoriano e a polifonia da Renascença, tocam fortemente a alma dos que a escutam, do mais analfabeto ao mais douto, do mais jovem ao mais idoso, e nem precisa de ser uma interpretação de qualidade profissional. E recordo também que seria importante fonte de vocações.

MINISTÉRIO
Infelizmente, em muitas comunidades, não temos consciência de que o ministério musical na Liturgia seja um ministério especializado, não havendo por exemplo cerimónias litúrgicas próprias para o investimento de tais pessoas, como as há para acólitos, leitores, e até para o órgão de tubos! Há uma cerimónia para inaugurar o órgão de tubos, mas não para orar pelo organista, ou pelos cantores. Na minha opinião isso seria do maior interesse uma vez que se trata de um ministério com suas particularidades e que exige grande dedicação e aprendizagem ao longo do tempo, e que ademais é tradicional, se não vejamos o epitáfio do cantor Andreas de Mértola. Existe também uma interpretação demasiado superficial do que seja a "participação activa", dando-se mais importância à participação com a voz do que com o coração. Julgo que antes de querermos cantar deveríamos primeiramente aprender a ouvir, porque "a fé vem pelo ouvido".

CATEDRAL
Por ser a música da Liturgia unha com carne com os mistérios que nela se celebram, é normal que seja difícil de viver e cause até repugnância ou estranheza, assim como causa a Cruz de Cristo no "homem velho". Seria portanto essencial que qualquer reforma musical começasse pela sé episcopal, onde por maioria de razão há capacidade logística para maior solenização da Liturgia e onde está presente aquela Autoridade que pode guiar com segurança as suas ovelhas para o pasto mais saboroso.

Sem mais de momento, renovo o agradecimento pela iniciativa de abordar publicamente o tema da música sacra, peço desculpa por alguma imprecisão, e apresento os melhores cumprimentos,

Francisco Vilaça Lopes

segunda-feira, 9 de junho de 2014

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