domingo, 10 de março de 2019

O Tempo e a Música

O musicólogo Rui Vieira Nery tem dedicadas várias emissões do seu programa radiofónico a temas que interessam ao público dêste blog; eis algumas:

O Natal:
O Te Deum na Música Antiga Portuguesa:
Polifonistas Portugueses dos séculos XVI e XVII:
As Lamentações de Jeremias:
A Música Sacra no Romantismo:

A Música Sacra no Modernismo:
Entre muitas outras.

domingo, 3 de março de 2019

Crítica ao Graduale Romanum de 1974 / Triplex de 1979

Neste artigo darei a minha opinião sobre as duas edições típicas para o canto gregoriano na Santa Missa segundo o rito romano reformado na forma dita ordinária. Referir-me-ei às duas simultaneamente no singular, pois na verdade são um mesmo livro, apenas divergindo em que no segundo se acrescentaram notações antigas.

Darei assim o meu pequeno contributo para a reflexão sobre o rumo a seguir numa futura edição litúrgica, volvido cerca de meio século desde o Concílio Vaticano II. Trata-se portanto da minha opinião pessoal, nesta fase do meu percurso, e que poderei mais tarde corrigir como já tive fiz a tantas outras, inclusive algumas publicadas neste blog.

Deixarei de fora deste pensamento o Graduale Simplex, por considerar que a sua proposta musical, embora interessante, resulta problemática e deverá usar-se apenas em circunstâncias muito excepcionais. Deixarei de fora igualmente a Liturgia das Horas, porque nela não tenho muitos conhecimentos nem prática, e também porque é bastante distinta da Missa (do ponto de vista musical e não só).

Vejamos primeiramente, então, os principais aspectos positivos que encontro no actual Graduale Romanum / Triplex:
  1. Oferece em volume único as indicações para toda e qualquer Missa do calendário universal da Igreja, ao contrário por exemplo do Graduale Novum. Naturalmente não inclui as festas introduzidas no calendário depois de 1974, o que não é problema pois podem cantar-se do Comum.
  2. Todos os cânticos que citam a Bíblia têm a respectiva referência indicada em cabeçalho.
  3. É um livro pequeno, facilmente transportável, barato relativamente ao que oferece, e tem margens razoáveis para se anotar algo no estudo pessoal.
  4. Prescreve que, no lugar das peças indicadas para cada ocasião, se possam cantar outras do mesmo tempo litúrgico (página 13: «In omnibus Missis de Tempore eligi potest pro opportunitate, loco cuiusvis cantus diei proprii, alius ex eodem tempore»).
  5. É produzido por uma congregação religiosa (Abadia Beneditina de Solesmes em França), relembrando a Igreja universal da importância do clero regular, e apoiando-o efectivamente através da compra dos livros. Já agora, a inclusão das missas e exéquias próprias da ordem de São Bento é uma curiosidade num livro que se destinaria à Igreja universal de rito romano. Ainda mais curioso é permitir, na página 877, que no lugar dos cânticos apresentados, se possam cantar outras versões directamente a partir de livros monásticos; creio que esta rubrica é de utilidade não apenas para a ordem religiosa mas para toda a Igreja, se pensarmos no património musical histórico disponível em cada local e na rede.
  6. No caso do Triplex, inclui os arcaicos neumas sangalenses e laonenses, utilíssimos para uma execução que se queira aproximar do 1º milénio.
Os aspectos negativos:
  1. A resistência física do livro não se compara com a dos manuscritos medievais que sobreviveram séculos. Com alguns meses ou poucos anos de práctica os danos começam a ser evidentes, sobretudo na lombada e nas fitas-marcadoras.
  2. É um livro demasiado pequeno para um mesmo exemplar ser usado por mais do que uma ou duas pessoas em simultâneo. Perdem-se assim os benefícios da partitura única, mas este obstáculo facilmente se ultrapassa com uma ampliação fotográfica.
  3. As rubricas não vêm encarnadas, mas sim da mesma côr do texto litúrgico, retirando-lhe o devido destaque. Este simples aspecto a ser corrigido ajudaria muito a que qualquer pessoa reconhecesse prontamente o Gradual como livro litúrgico de pleno direito, como qualquer edição do Missal ou do Leccionário.
     
  4. A indicação do modo ao início de cada cântico é, no meu entender, absolutamente desnecessária. Exemplos existem até que podem causar confusão ao leitor, tais como peças com modo imperfeito, mais-que-perfeito, ou irregular. Talvez nos intróitos e comunhões se possa argumentar que saber o modo da peça ajuda a escolher o tom para o salmo e Glória Patri, mas a verdade é que a tradição nunca viu essa necessidade: quando o primeiro verso se não transcrevia na íntegra, oferecendo assim o modelo do tom inteiro a aplicar aos versos seguintes, mostrava-se apenas o final característico, a chamada differentia ou cadência final, que era suficientemente característica para recordar o cantor de toda a fórmula de entoação. Seja como fôr, qualquer Mestre e até mesmo Cantor com alguma práctica e conhecimentos tem a obrigação de olhando a composição rapidamente definir o modo em que se encontra.
     
  5. As iniciais dos cânticos são paupérrimas, o que se vê logo ao primeiro cântico. Perde-se portanto a oportunidade deusufruir da riquíssima tradição iconográfica católica, aludindo aos mistérios celebrados e inspirando o intérprete na espirituosa execução do canto.
     
  6. Cada sílaba aparece inteira ao início do neuma; nas fontes antigas, pelo contrário, as consoantes finais de cada sílaba aparecem juntas ao final do neuma, o que ajuda o cantor a não falhar a articulação nos melismas mais longos.
     
  7. Os acrescentos à notação quadrada já eram ultrapassados do ponto de vista musicológico à data da publicação, e são-no muito mais nos nossos dias: pontos de mora, episemas verticais, episemas horizontais em locais errados, pausas, etc.; até o asterisco, que não aparece nos documentos antigos.
     
  8. Tem alguns cânticos repetidos; facilmente se vêem quais consultando o índice da página 893ss. Esta característica (em abono da verdade partilhada com muitos códices antigos) não será o maior problema, facilitando até a marcação das páginas durante a celebração, mas continuo a pensar que a ausência das repetições permitiria uma melhor economia de espaço e a introdução doutros recursos em falta, que são muitos, como veremos.
     
  9. Com efeito, estão ausentes muitas peças de pleno direito do canto gregoriano. Este é um enorme problema de que não temos noção até consultarmos as fontes antigas, e que só por si mereceria um artigo mais detalhado (fica a promessa). Basicamente, cabe aqui dizer que o actual Gradual foi constituído nos finais do século XIX e inícios do XX tendo os monges por base um conjunto de códices muito mais limitado do que hoje conseguimos consultar em linha. Quando digo que faltam numerosíssimos cânticos, refiro-me às seguintes situações-tipo, dando para cada uma delas um ou dois exemplos, entre tantíssimos:
    1. Composições com melodia diversa (“melodia altera”) para o mesmo texto no mesmo género litúrgico-musical, p.ex. Alleluia Verbo Domini de Sens em Lisboa, ou ofertório Recordare mei Domine de Braga.
    2. Composições contrafeitas com texto aplicado a géneros diversos, p.ex. Alleluia Ecce virgo concipiet com o texto da Comunhão homónima na melodia de 2º modo das Aleluias da família Laudate Dominum.
    3. Composições com texto diverso e muito significativo, e igualmente melodia diversa, p.ex. as três Aleluias da Santíssima Trindade de Braga.
    4. Os Versos dos Ofertórios, composições lindíssimas e muito necessárias à liturgia, que representam o expoente máximo do estilo melismático no reportório gregoriano clássico, as quais aliás nos indicam que temos muito a crescer na celebração do rito ofertorial. Exemplos: Benedictus es e Benedicamus patrem para a Santíssima Trindade em Guimarães.
    5. Numerosíssimas sequências transbordando teologia sã, assim como os tropos (melógenos, logógenos, e meloformes), não apenas os do Kyriale mas também do Próprio.
  10. Não podemos tão-pouco encontrar nem ganhar noção das múltiplas versões de cada peça; são inúmeras as pequenas variantes de um mesmo cântico, quer as textuais (letras, sílabas ou palavras), quer melódicas (alteração da altura, supressão, multiplicação, transposição, etc.), variantes estas que podem mesmo chegar a mudar o modo e a côr da peça. O seu conhecimento informa-nos sobre a evolução da música e os diferentes critérios estéticos que foram sendo assumidos pelas gerações passadas da Igreja em cada local, assim como de onde e para onde se transmitiram as tradições musicais e litúrgicas.
     
  11. O ordo para a forma ordinária é significativamente diferente do da forma extraordinária (edição de 1961); isto deveu-se à tentativa de acomodar as alterações do calendário litúrgico. Talvez o exemplo mais notório seja a extinção do tempo de preparação da Septuagésima à Quaresma, criando a necessidade de trazer Aleluias para semanas que as não tinham, e inclusive cânticos de depois do Pentecostes para antes da Quaresma. A Missa Requiem será outro exemplo importante. Mas aqui o meu ponto essencial é que duas formas do mesmo rito não deveriam necessitar de dois livros de côro diferentes. Mesmo havendo dois Missais diferentes (e Rituais etc.), o Gradual é um livro distinto (e sempre assim foi) e deveria ser possível usar o mesmo Gradual nas duas formas. Como comparação, os Graduais de Braga, embora sirvam para integrar um rito diferente do Romano, são bastante parecidos aos Romanos.
  12. Na verdade, as alterações feitas ao Gradual em resposta à reforma do Missal não permitiram manter a harmonia existente na forma extraordinária, uma vez que os textos dos novos Missal e Leccionário frequentemente diferem do Gradual, ou seja ninguém consegue acompanhar o texto cantado pelo Côro: nem o Celebrante com Missal e Leccionário, nem o Pôvo com os missaletes produzidos a partir destes. Refiro-me sobretudo aos Responsos Graduais e os Tractos (substituídos nos Missais/Leccionários por formas completamente inéditas), passando pelos Ofertórios (omitidos do Missal) e também as restantes peças próprias tais como as Aleluias (quase sempre diferentes no Leccionário) e os Intróitos e Comunhões (nem sempre diversas mas mais do que seria desejável).
     
  13. O texto dos versículos da Comunhão não se encontra na edição. Antigamente mostravam-se-os da mesma forma que no Intróito, o que faria hoje todo o sentido. Para cantar mais versos, quer no intróito quer na comunhão, é necessário conhecer o restante texto do Salmo de cor (o que é imaginável em quem reze diariamente a salmodia da liturgia das horas) ou recorrer a alguma edição sem música da Bíblia (a Nova Vulgata no caso da actual forma ordinária); quer num caso quer noutro, é muito difícil cantar aquelas séries de versículos não-consecutivos, por vezes até saltando algumas dezenas de versos duma só vez, na práctica obrigando a copiar aquela combinação de versos para outro suporte. Qual a solução? Reconheço que seria excessivo transcrever toda a Bíblia, talvez até somente o livro dos Salmos, para o Gradual: o mínimo a conter seria o salmo 33 sugerido nas rubricas da página 12. E vejo também ser muito apropriado cantar os tais versículos em vernáculo a partir das edições locais para tal concebidas (cfr. p.ex. a actual edição ad experimentum da Conferência Episcopal Portuguesa).
     
  14. Não inclui um índice das passagens bíblicas, ao contrário do que existe p.ex. no Graduale Novum. Tal índice permitiria seleccionar cânticos com o mesmo texto das leituras do dia (na linha do que o Mestre Fulvio Rampi chama de “princípio de pertença”); neste ponto relembremos a rubrica que permite a selecção menos rígida dos cânticos e extendamos também a nossa escolha a cânticos ausentes da actual edição e muito adequados à circunstância (cfr. ponto 9).
     
  15. Os tons das orações e leituras não se explicam convenientemente, ao contrário do que sucedia na edição de 1961, podendo recuperar-se a secção mais antiga, eventualmente complementada doutras variantes locais muito interessantes. Ademais, não se destinando a serem cantados pelo Côro, estes tons fazem mais sentido no Missal ou no Leccionário, pelo que até deveriam ser eliminados do Gradual e transferidos dêste para aqueles livros litúrgicos, deixando mais espaço para a música coral.
(Não falo da ausência das preces, das referências às leituras do dia, ou das traduções dos cânticos em vernáculo tais como se encontram por exemplo no Gregorian Missal for Sundays pois não tenho opinião sobre este assunto.)

Em face de todos estes problemas, concebo duas alternativas para uma futura edição litúrgica: uma mais convencional, outra mais radical.

A primeira e mais convencional seria editar um gradual único para as duas formas do rito romano, em que fossem corrigidos a maioria dos problemas atrás apontados, nomeadamente:
  • mantendo a mesma dimensão mas permitindo a ampliação fotográfica sem preocupação de direitos autorais;
  • impressão bicolor com o vermelho para as rubricas, o tetragrama, e complemento das ilustrações.
  • sem indicação de modo musical, com citação à Sagrada Escritura;
  • com iniciais belas para todos os cânticos especialmente das principais festas;
  • com versos de intróito, de ofertório e de comunhão, e com mais sequências;
  • com as consoantes finais de cada sílaba alinhadas no fim do neuma;
  • com a notação mais simples possível, que proponho consistir em p.ex. losangos para os elementos neumáticos rápidos e quadrados para os longos (cortes neumáticos), seguindo uma reconstituição melódica consensual; embora já tenha realizado no passado algumas experiências partilhadas neste blog com uma notação neoquadrada-sangalense, o uso da mesma requere razoável conhecimento da semiologia o que me parece limitador. Dou um exemplo portanto duma notação simplicíssima (e respectivo código GABC):
%%
(c3) AL(D~/E~/f) le(f/e/f/G~/h/g) lu(F~/h/H~/H~) ia(H~/I~/H~/F~/f/e/g/h/E~/F~/e/d/f/G~/H~/h/g/E~/G~/f/g/f/f/e)

  • nunca repetindo o mesmo cântico e apresentando maior variedade, se disponível acrescentando mais do que uma opção para cada momento.
  • adoptando uma única versão para o texto; anexando o salmo 33 na íntegra; e um índice de referências bíblicas.
A segunda opção consistiria em publicar o ordo apenas com o texto das peças, sem música, de modo semelhante ao que foi feito para a Liturgia das Horas há alguns anos atrás. O Mestre pesquisaria nas suas fontes favoritas qual a versão a usar para cada cântico, uma versão monódica ou polifónica, manuscrita ou dalguma edição mais recente, ou até da sua própria composição, a qual imprimiria depois no formato mais conveniente para a capella. Esta segunda opção exigiria mais empenho de Mestre e cantores permitindo também uma muito maior qualidade no rendimento musical, e poderia constituir um passo intermédio na estruturação duma futura edição integral do Gradual Romano.

https://www.facebook.com/notes/francisco-vila%C3%A7a-lopes/cursos-canto-gregoriano-2019/1972610229474891/
Cursos de Canto Gregoriano 2019

domingo, 25 de novembro de 2018

2ªs Vésperas Solenes do 1º Domingo do Advento / Dominica I Adventus Ad II Vesperas Sollemnes

Recursos para o canto da hora em epígrafe com Presbítero a partir de reportório histórico português, na forma ordinária do rito romano. Celebração em idioma misto, com alguns cânticos em português, outros em latim, conforme se achou conveniente.
  • Partes para o côro, para impressão em formato grande (A3 ou maior) em exemplar único para todo o côro (PDF)
    Faltam aqui os textos dos salmos para as 1ª e 2ª antífonas assim como a do Magnificat, pois inicialmente havíamos previsto cantá-los em Latim; podem portanto cantar-se a partir da edição do Secretariado Nacional da Liturgia; no cântico da 3ª antífona, faltam uma ou outra aleluia no Gloria Patri que facilmente se podem acrescentar à mão depois da impressão.
  • Partes para o sacerdote celebrante (PDF)
    Aqui tentámos recuperar a tradição veiculada em Talésio (pág. 108) de o Celebrante "alevantar" (iniciar) as antífonas 1ª e de Magnificat; dá-se igualmente os tons do Pater noster e Benedicamus Domino próprios da L.H. nos Domingos de Advento.
  • Traduções para o pôvo (PDF)
    Apenas dos cânticos em latim, para permitir a compreensão de todos.
Um agradecimento ao grupo de discussão dos Ofício Divino e Breviário pela ajuda.

FICHA TÉCNICA
Dominica I Adventus Ad II Vesperas Sollemnes
2-12-2018

Textos portugueses: cfr. http://www.liturgia.pt/lh/
Ordinário: http://www.liturgia.pt/lh/pdf/1200Ordinario.pdf
1º Domingo do Advento: http://www.liturgia.pt/lh/pdf/012AdvDomI-III.pdf
1º Domingo do Saltério: http://www.liturgia.pt/lh/pdf/080101DomI.pdf



Excerto do tratado Arte de canto chão do Mestre Pedro Talésio (1618).


Melodia do Hino: http://pemdatabase.eu/musical-item/16992
Outras melodias (não utilizadas) para a mesma métrica:
http://pemdatabase.eu/musical-item/19664
http://pemdatabase.eu/musical-item/17459
http://pemdatabase.eu/musical-item/17806
http://pemdatabase.eu/musical-item/17575
http://pemdatabase.eu/musical-item/16943
http://pemdatabase.eu/musical-item/17483

Em vez do hino que por lapso se retirou do I Domingo do Saltério, pode cantar-se este mais próprio do Advento:



1ª Antiphona: Jucundare filia Sion http://pemdatabase.eu/musical-item/25169
Tom salmódico: Talésio p.57 http://www.purl.pt/72



2ª Antíphona: Rex noster http://pemdatabase.eu/musical-item/9020
Tom salmódico: Talésio p.63 ibidem (próprio para o salmo In exitu Israel)



3ª Antíphona: Ecce venio cito http://www.e-codices.unifr.ch/en/fcc/0002/5v
Tom salmódico: Talésio p.60
Tom do cântico aleluítico na edição típica da L.H. na F.O. fotografado pelo Mestre Ján Janovčík:




Leitura: Talésio p.91,87

Responsório breve: Ostende http://pemdatabase.eu/musical-item/8585
Gloria Patri: Talésio p.77

Ant.Mag.: Ne timeas Maria http://pemdatabase.eu/musical-item/9051
Tom do Magnificat: Martins p.68 http://purl.pt/17344/1/index.html#/68/html



Preces para as Vésperas: http://www.liturgia.pt/lh/pdf/1102PrecesVesperas.pdf
Refrão das Preces: https://archive.org/stream/processionariumm00cath#page/223/mode/1up

Pater noster: Talésio p.111

Bênçãos de Advento: http://www.liturgia.pt/lh/pdf/1104FormBenLauVes.pdf

Conclusão: cfr. http://pemdatabase.eu/musical-item/15999
Canon do Amen: http://digital.slub-dresden.de/werkansicht/dlf/90201/10/

Benedicamus Domino: Talésio p.106


GRAVAÇÃO INDIVIDUAL

domingo, 1 de julho de 2018

Cantar do Manuscrito Antigo (II)


É com muita alegria que anuncio o início da minha colaboração com a Portuguese Early Music Database, projecto já publicitado neste blog e que visa desenvolver o estudo do reportório músical litúrgico histórico português; esta base-de-dados integra-se numa outra homóloga, de âmbito mundial, o Cantus Index. Aceitei com muito gosto o convite da coordenadora de desenvolvimento, a musicóloga Elsa De Luca, que nos pediu que completássemos a indexação dos cânticos do manuscrito 016 do Museu de Arte Sacra de Arouca.


Trata-se de um Gradual monódico da tradição cisterciense, produzido em Portugal durante o século XV e usado no Mosteiro feminino de Santa Maria de Arouca, tendo chegado aos nossos dias praticamente completo e em excelente estado de conservação. Constitui portanto um dos principais depósitos do cantochão português.

Creio que indexar esta e outras fontes musicais será de importância vital não apenas para o estudo da música sagrada num plano académico, mas sobretudo possibilitará a longo prazo uma verdadeira e significativa renovação musical na Igreja.

Por esta razão, estamos muito felizes por esta nova empreitada. O primeiro cântico que indexámos foi a Alleluia Fuit homo missus a deo cui nomen iohannes erat, para a Missa do dia de São João Baptista, peça que se destaca por estar ausente do actual Gradual Romano.


São João Baptista, rogai por nós.

domingo, 17 de junho de 2018

Crítica a um côro gregoriano principiante

Foi com grande alegria que recebi do amigo Hélio Rosas a gravação da Santa Missa do 11º Domingo do Tempo Comum, celebrada pelo Reverendíssimo Padre Fabiano Cabral na Igreja Matriz da Paróquia de São Vicente de Paula de Maués em Vitória de Santo Antão em Pernambuco, no Brasil. O ministério coral ficou a cargo da Escola de Canto Gregoriano Santa Cecília, residente em Olinda, e dirigida por Adauto Félix da Hora:



A apreciação global que faço é muito positiva. Trata-se de um côro principiante, que conseguiu efectivamente cumprir todo o texto litúrgico, pronunciando-o claramente, a canto gregoriano, sem cometer nenhum erro fatal, e integrando-se pacificamente na cerimónia com a comunidade. Tenho a certeza que têm grande potencial, e, portanto, merecem uma crítica.

Eis alguns aspectos gerais para melhorar. O principal é a insegurança das vozes, que se notou praticamente em todos os cânticos. O fluxo da interpretação foi, para o meu gosto, demasiado lento e pesado, isorrítmico, muito à "cantochão". Se bem que na verdade a maioria dos córos gregorianos opte por esta estética, cabe aqui recordar as palavras do Monsenhor Domenico Bartolucci, quando disse que o canto «gregoriano de otrora sabia ser também canto do povo, cantado com força como com força o nosso pôvo exprimia a sua fé.» Ou seja, há que trazer para o canto sacro a expressividade do canto tradicional, das sinfonias, da ópera, do jazz, em suma, de toda a boa música. E ler Dom Eugénio Cardine.

Na práctica, aconselho que todos os membros do côro cantem um íson ou bordão, enquanto o Mestre só ou com mais algum elemento da sua escolha canta o reportório propriamente dito. O íson ou bordão é algo muito fácil de fazer. Consiste em cantar uma mesma nota contínua, em geral a nota final da peça (finalis). Aconselho a começar o íson antes e só depois começar o cântico propriamente dito (incipit); e no fim acabar primeiramente a melodia principal e só depois o íson. O íson pode ser feito com a boca fechada, em m, e quando o côro ganhar mais confiança, um ou mais cantores podem proferir também o texto, ao mesmo tempo que a voz principal. Com mais confiança ainda, o íson pode não cantar-se em toda a peça, havendo momentos em que se o canta, e outros em que se cala, e também fazer pequenas inflexões em momentos especiais, favorecendo uma maior expressividade e destacando os texto e melodia principais.

Aconselharia igualmente absterem-se de usar o órgão, e integrar o organista no íson. O órgão faz sentido na música sacra não apenas como acompanhamento, mas sobretudo como organum, como verdadeira polifonia, o que é apenas para os agrupamentos mais entendidos (cfr. artigo prévio); até lá, ficam melhor sem ele.

A indumentária dos cantores deve ser mais formal (camisa com gravata ou laço), ou litúrgica (como a dos acólitos). A partitura deve ser única, impressa em grande formato (A3) e exposta em suporte elevado à altura da cabeça; e as folhas individuais eliminadas. O sotaque do latim deve ser não o italiano mas o brasileiro da região, o que em justiça se notou nalguns passos do Glória e Credo, mas fiquei sem perceber se tal foi intencional. Nos momentos certos devem fazer-se as respectivas inclinações e persignações (cfr. cerimonial do acólito). A localização do côro não percebi onde ficou, mas havendo côro-alto deve ser esta. Os microfones devem apenas servir para a gravação e transmissão da cerimónia e não para ampliar o canto. Já agora, nota muito positiva para a realização do vídeo e respectiva partilha na internet.

Passemos, então, ao reportório propriamente dito.

O Intróito tomou o texto do Missal (idêntico ao do Gradual Romano), em língua portuguesa, e aplicou-lhe uma composição silábica do 7º modo (o mesmo do Ĩt. deste Domingo, Exaudi ... adjutor), cuja origem não consigo identificar (possivelmente do Graduale Simplex ou dalguma publicação monástica brasileira?), mas formalmente típica da Liturgia das Horas, com o texto doutro versículo diverso do intróito gregoriano autêntico. A adaptação está muito bem conseguida, classificando-se como um cântico gregoriano simples em vernáculo. A melhorar apenas a troca do verso pelo original, e na doxologia "Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio e agora e sempre" acrescentar "e pelos séculos dos séculos" antes do "Ámen"; e, claro, cantar o intróito autêntico, quando fôr tempo disso.

O Kyrie foi o número XI B no actual G.R. e lá indicado para os Domingos do Tempo Comum. Boa escolha. A melhorar o facto de cada invocação ter sido cantada apenas duas vezes e não três, como é tradicional; bem sei que os Missal e Gradual modernos prescrevem a forma dupla, mas o Gradual prevê também que aquelas versões cuja composição seja diferente a cada uma das repetições triplas (p.ex. Kyrie XV) possam cantar-se 3x3. Eu diria que qualquer Kyrie se pode cantar 3x3, mesmo na forma ordinária, mas se houver algum escrúpulo com esta matéria facilmente se resolve o assunto trocando para outra versão.

O Glória in excelsis foi o IV ad lib. (more ambrosiano), aparentemente boa escolha para um côro iniciante, mas mais arriscado nos neumas decorativos. A versão número XI é mais fácil do que parece, se atentarmos que cabe perfeitamente num hexacordo de solmização (natura gravis).

O Salmo Responsorial tomou o texto do Leccionário em português, aplicando às estrofes a fórmula do tom salmódico do 5º modo da Liturgia das Horas, e ao refrão a sua entoação inicial e cadência mediana, repetidas bis. O resultado final é bastante satisfatório, creio até mais fácil e funcional do que as soluções que ofereci para um S.R. em vernáculo (cfr. artigo prévio). Obviamente que melhor do que S.R. é o Responsório Gradual autêntico, mas compreendo a preferência pela forma mais divulgada hoje em dia. Apontaria apenas a diferença entre o refrão que se cantou por Bmole e as estrofes que se cantaram por Bquadro (descoordenação e dissonância com o órgão). O correcto seria cantar o refrão por Bmole, e explico porquê: 1º) toda a melodia caberia num hexacordo de solmização (molle gravis), i.e. poderia solfar-se ut mi sol sol sol la sol, sol la fa sol mi; 2) nos modos de Ffaut (5º e 6º), o B é a 4ª acima da finalis, ou seja cantar Bquadro seria fazer trítono com a finalis, o que é proibido quer se trate de canto monódico, quer acompanhado dum eventual íson na finalis Ffaut; este facto era de tal modo evidente para os cantores do passado, que em modo de Ffaut era raro assinalar-se o sinal de Bmole, e os tratados falam disso; por esta razão, possivelmente os códices que serviram de fonte às edições litúrgicas do século XX aparecem sem o tal Bmole.

A Aleluia tomou o refrão da Al. Domine in virtute tua do 6º modo, prescrita pelo G.R. para o 11º Domingo. Pessoalmente não gosto que se repita o incipit da mesma. O verso cantou-se do Leccionário (texto diverso do G.R.), aplicando-lhe uma melodia silábica no mesmo 6º modo, cuja publicação desconheço, mas muito bem conseguida.

Belo e inspirador sermão, seguido do Credo III, talvez escolhido por ser o mais conhecido actualmente, e interpretado com algumas faltas menores que depressa se dissiparão. Concordo com a ausência de música na "oração universal / dos fiéis".

O Ofertório terá tido a mesma fonte do intróito, desta vez uma antífona do 5º modo (com um arrojo plagal na cadência). A qualidade musical da antífona é inegável. Também aqui os BB dos versos deveriam ter sido moles, pelas mesmas razões apontadas para o S.R.. Texto diverso do proposto pelo G.R. mas com ligação directa ao Evangelho.

Sanctus XI, agrupado com o mesmo número do Kyrie. Mais atenção às liquescências diminutivas, que deveriam pronunciar-se apenas com consoante e não com vogal.

Pater noster, em latim, no tom A, o mais conhecido.

Agnus Dei também XI. Aqui notou-se muito o incipit dado pelo órgão, seguindo-se a entoação a medo. Nota-se também o desejo de cumprir as rubricas e obedecer aos asteriscos, o que será porventura louvável; contudo creio que toda a peça poderia ser cantada por todos. Lembre-se que na tradição não havia asteriscos e os incipit do ordinarium eram omitidos dos livros do côro (porque eram cantados pelo Celebrante) apenas no Glória e Credo, e não nas restantes peças nem no Agnus, durante o qual o Celebrante está ocupado fracturando o Pão. Reforça-se então a sugestão do íson, e que haja uma maior energia no canto.

A Comunhão terá a mesma origem dos intróito e ofertório, assumindo desta vez o 6º modo, e o mesmo texto da Comunhão autêntica. Deixo a mesma ressalva para a doxologia trinitária dos versos. Excelente composição. Note-se, já agora, que o versos (versão alt. do 6º tom da L.H.) não tocando no Bquadro não geram o efeito dissonante atrás descrito para outras peças. O tropo melógeno pelo órgão no final da Comunhão foi de bom gosto. Côro e organista devem também comungar, e se para tal necessário fôr faça-se algum silêncio sagrado.

A Salve Regina depois da Missa, não estando prescrita, é uma devoção que recebi do Reverendíssimo Padre Doutor Armindo Borges e igualmente pratico. Para além de louvar a Virgem, creio ser também útil para manter o ambiente de oração durante a saída dos fiéis.


Em jeito de conclusão, nota-se que houve uma opção clara por um proprium simples vernacular, e um ordinarium também acessível em latim, opção esta bem compreensível nesta fase. A questão que se coloca é: em que sentido evoluir? Tudo dependerá das oportunidades e da perseverança dos músicos. Ao longo desta crítica (que pretendi ser construtiva!) fui deixando várias sugestões, às quais acrescento que se adquira maior confiança na solmização (cfr. artigo prévio).

Uma vez mais, congratulo este pequeno grande côro, e desejo a todos as maiores felicidades no ministério musical, sempre para a maior glória de Deus!

domingo, 17 de dezembro de 2017

Cantar do Manuscrito Antigo

Hoje partilhamos convosco os cânticos do Kyriale que canto na Missa. Todos eles se encontram disponíveis para consulta digital na Portuguese early music database.
  • a Missa in diebus ferialibus do Kyriale escrito em notação quadrada semimensural em 1613 na Colegiada de Guimarães e hoje presente na mesma cidade no Museu de Alberto Sampaio com a cota LC 7, aos fólios 032v-033r e seguintes.
  • e a Glória do Graduale integrado com sequências e Kyriale, escrito em notação quadrada, originário da arquidiocese de Sens em França a partir de 1297 e que se encontra hoje na Biblioteca Nacional de Portugal em Lisboa com a cota de manuscrito iluminado número 84, aos fólios 265r e seguintes.
Com a preciosa ajuda do Amigo Felipe Gomes de Souza Araújo de Inimutaba nas Minas Gerais, transcrevemos estes cânticos para formato gregorio, que agora publicamos, sem especiais pretensões académicas, para uso livre na Liturgia e maior glória de Deus. Descarregai a partitura (PDF) e os códigos-fonte (gabc, LaTeX).




Partilho as razões de ter escolhido estas versões manuscritas para cantar na Santa Missa:
  • Foi-me dada total liberdade artística.
  • Os manuscritos antigos são mais belos do que qualquer edição moderna. A beleza do manuscrito inspira o cantor a impregnar o seu canto de maior beleza.
  • A antiguidade do manuscrito ensina a amar a tradição e a encarná-la.
  • Os manuscritos portugueses (na sua origem ou no seu destino) são os mais próximos ao meu coração.
  • A grafia do latim medieval informa sobre a pronúncia local dos textos sagrados, à época, provando a existência duma pronúncia portuguesa, e que tento sempre seguir na Liturgia.
  • Optei pelas melodias mais simples pois o Reverendíssimo Sacerdote Prior da Igreja pediu-me que o povo participasse vocalmente do canto gregoriano.
  • O canto gregoriano não é um livro, mas um mapa de códices.
    • Os cânticos gregorianos não foram exactamente iguais em toda a Igreja ao longo dos séculos.
    • Encontram-se variantes textuais, melódicas, rítmicas, e na própria composição da ordo.
    • Uma variante não é mais correcta que outra: são diferentes, e apenas uma dentre as centenas existentes foi incluída na edição típica vaticana.
    • Por exemplo, a Glória que se apresenta neste postal tem claras semelhanças com aquela que recebeu na tradição o tropo Quem cives celestes e na edição vaticana o número XV; mas surgem igualmente diferenças significativas, tais como nalgumas cadências e liquescências, que dão a esta versão um sabor próprio.
    • O mesmo se diz dos outros cânticos escolhidos: o Kyrie da família do Deus genitor alme (XVIII na edição vaticana), que é mais simples e cantável, e do mesmo modo terminando uma 5ª abaixo; o Sanctus, ligeiramente ainda mais silábico que a versão típica; e o Agnus Dei, com entoações chegando à terça maior e cadências moles em vez de duras.
E o mesmo se dirá de quaisquer outros cânticos: Credo, próprio, tons de recitação das orações e leituras, dos versículos salmódicos, antífonas, responsórios e hinos das liturgia das horas, etc.. Algumas peças são verdadeiramente autênticas, quer no texto, quer na melodia. Tentarei um dia escrever sobre algumas particularidades que vou encontrando no reportório português.

Portanto, por estas várias razões, aconselho toda a gente a cantar sempre do manuscrito, na Liturgia.
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