terça-feira, 19 de maio de 2015

Música no Paraíso - O universo musical e cultural da Igreja Cristã ao longo de 2000 anos.


Um programa radiofónico de Pedro Miguel Nunes na Antena 2.

Uma viagem iniciática pela história da Música da Igreja Cristã, que começa na Alta Idade Média, até aos nossos dias.

Um programa que pretende fazer uma viagem musical e espiritual pela música cristã, fazendo nos aproximar através da música daquilo que se entende ser a visão do Paraíso.

Um agradecimento especial à Ana Sofia pela divulgação deste curso a não perder.

  1. A música bizantina: psaltês, íson, terirem
  2. O canto gregoriano
  3. A Ars antiqua e a Ars nova
  4. O canto monástico de Hildegard von Bigen
  5. A música cristã renascentista
  6. Palestrina, Allegri e a Nova Música Católica
  7. O barroco na Música Sacra
  8. Bach e a instituição de uma Nova Música (a transmitir a 24 e 30 de Maio de 2015)
  9. A Música Cristã e o Iluminismo (31Maio e 6 Junho)

domingo, 17 de maio de 2015

Assim na Liturgia como no Folclore



Faço minhas as ideias que o sr. Desidério Afonso expôs no documentário dedicado à Música d'«O Pôvo que Ainda Canta» no Alto Minho, transmitido pela Rádio-Televisão Portuguesa em 9 de Abril de 2015.

Eis alguns trechos desta valorosa defesa patrimonial e resgate etnomusical, que aqui vou comentando em jeito de aplicação à música litúrgica.
As concertinas doutros tempos nom tinham nada a ver com estas, nem estas vozes; mas tão-bem houve uma degradação das vozes porque as vozes femininas e masculinas dos anos 50 eram muito superiores às que encontramos hoje, sem dúvida. (...) Aquelas vozes, de pessoas que já faleceram na maioria (ainda existe talvez duas ou três), aquelas vozes são autêntico ouro. (...) E para isso basta ver os discos que foram gravados na altura, e até o rancho de Dem em 50 e até 56 grava, digamos... é o ouro: 'tá ali ouro, é autêntico ouro.
Na Igreja frequentam a Missa tantos fiéis capacitados para a arte musical, tantos cantores, instrumentistas de teclado e de orquesra, maestros e até compositores, e o que faz a Igreja com este "ouro"? Pede-lhes que dignifiquem o culto divino e edifiquem o próximo com a sua arte? Não: para certos pastores, isso seria falta de humildade, porque para êstes humildade é delegar o ministério musical nos mais incompetentes, nos mais novos de idade, nos mais recentes na fé. Resultado: perdem-se os grandes porque se calam, perdem-se os pequenos porque não aprendem a calar-se, e perdem-se os ouvintes, que ficam mal servidos.
O Homem de Mello, um dia (eu penso que estávamos em 1975, salvo erro, 74 ou 75), o Homem de Melo convida-me para ir a Sã'João d'Arga. Chegados lá, ele disse-me que aquilo não era o Sã' João d'Arga, o Sã' João nom tinha nada disto!
Dá vontade de dizer o mesmo de muita música que se canta nas igrejas: a Missa não é nada disto!
O Sã' João tinha era concertinas, ferrinhos, cavaquinhos, barguesas. (...) Depois veio os altifalantes e estragaram um bocadinho porque já as concertinas tocavam menos. E ele disse-me «Olhe, isto alterou: estão os altifalantes sempre a tocar, é uma barulheira constante, e tal (...) E então ele dirigiu-se à cabine de som, e comprou, salvo erro, ele deu dois contos e meio por uma hora ou hora e meia de discos, e o sr. pergunta-lhe: "Escolha então os discos". E ele diz: "Não, nom escolho nada, nom quero disco nenhum, o sr. tem o dinheiro e agora nesse período de uma hora ou hora e meia, que o senhor considerar que este dinheiro dá para discos, o senhor não põe nada a tocar. E portanto há um silêncio cá fora, porque acaba a música.
Oxalá houvesse esta coragem nas nossas igrejas: calar o ruído para poder ouvir a Deus. Quantos de nós não experimentámos já maior paz e fruto espiritual duma Missa ferial dita sem música, do que da Missa do Domingo cantada e com todas as distracções? O canto gregoriano consegue ser ao mesmo tempo música e silêncio: é música que cria silêncio, e silêncio onde se ouve a Palavra de Deus.
'Tava tudo a mijar fora do penico, parou a música! - Exactamente! - Respeito toda a gente, mas também gosto de ser respeitado. 'Tamos numa brincadeira, numa festa, vamos começar a tocar, uns de cada vez, aqueles que cantarem, e as pessoas 'tão a cantare, as outras escutam e respeitam. Não é estar a cantar aqui, e de repente passa para acolá. Não, sr.! Isso eu não aceito. Se as coisas estão assim, parou a música, parou a festa.
E quando há este silêncio, criado pela verdadeira música sacra, as pessoas unem-se à oração do côro, idealmente sabendo o Texto que eles estão a cantar, mas mesmo não o sabendo algum grau de união com o sentimento evocado por aquela melodia existe sempre com o canto gregoriano. Participação activa.
Tentámos saber se existia por ali uma concertina, mas foi difícil, embora encontrássemos o Vilarinho de Cobas, que tinha uma motorizada, e tinha um caixote e tinha uma concertina. (...) Mas de imediato a Comissão de Festas tentou saber o que é que se passaba, e portanto anulou todo este programa, isto é fez debolber o dinheiro ao Homem de Melo, e novamente os altifalantes.
Há sempre resistência.
E foi a partir daí que ele criticou e comecei eu a, na comunicação social, principalmente no jornal de Caminhense... Passado um ano (não posso precisar quando) o Padre Coutinho me dá razão e assim respeito, e aí começa a romaria a crescer, e a chegar as concertinas e a haver espaço para elas. (...) Mas hoje já temos um Sã'João d'Arga que muito se assemelha, em termos de concertinas, já à década de 50 e até de 60, já estamos muito próximos desse Sã'João d'Arga (...)
A gente dançaba, fazia uma ronda aqui, outra ronda ali e andábamos toda a noite a chantar. (...)
 Ou seja, depois das dificuldades na restauração da música sacra, vereis a recompensa do vosso esforço, que são o reconhecimento do povo fiel, e a santificação de todos.

Eu entendo hoje que o folclore tem que descer dos palcos. A forma teatral com que nós muitas vezes nos apresentamos em palco, a deturpação que nós muitas vezes fazemos do alinhamento, do remate da dança, da forma quomo iniciamos, tudo isso é um espectáculo que contradiz a arte popular, o verdadeiro folclore, que no fundo num é nada disso! O berdadeiro folclore é espontâneo: até o desfile era amontoado, eram as concertinas uma atrás outra no meio, eram as moças a namorar, eram os rapazes a roubar os lenços, era a dibersão em si, e era a participação do público.
Não faz sentido nenhum haver concertos de música litúrgica. Esta é oração, e não simples execução artística ou folguedo. Dirige-se a Deus e não aos homens. Se gosto de ir a um concerto de canto gregoriano porque só lá consigo ouvir o que gostaria de ouvir na Liturgia, isso não é um argumento a favor de que se façam concertos, mas de que se o cante no seu devido lugar.
O grande admirador do folclore, aquele homem que viu o folclore é o home d'antanho, é o homem de tamancos, esse é que sabe se o dançarino 'tá a dançar bem, se 'tá a dançar mal, se a cantoria está correcta ou num está correcta: esse homem é que sabe.
(...)
Se tens perto de ti um sacerdote velho que ainda foi formado antes do Concílio Vaticano II, aprende com ele, porque ele viu e ouviu como e o que se cantava.
E portanto, hoje, um dos autênticos espectáculos que cada vez menos me dizem (a mim não me dizem nada), cada vez menos nós conseguimos viver esse folclore, e cada vez mais nós nos afastamos disso, e queremos levá-lo às origens, pelo menos pôr o público também a vibrar, também a dançar, a viver esse homem d'antanho, que no fundo tamém eram os avós deles, os bisavós e outros, eles tão-bem dançaram. Mesmo o homem citadino, o familiar dele dançou isso, e ele nem sequer se apercebe disso nem o sabe.
Quando fôr restaurada a música sacra na tua igreja, todos a reconhecerão com naturalidade, como aquilo que está certo, e todos fruirão dela e viverão o que toda a vida os seus antepassados viveram e lhes transmitiram.
Portanto, seria um grande objectivo, pelo menos tentar. Não quer dizer que se consiga; se nom se conseguir, prontos, tentou-se.
Magnanimidade!
Começámos a cantar quando éramos novinhas, com dez/onze anos já cantávamos. E era a fazermos os trabalhos, a gente ia p'os trabalhos e cantaba. Na altura que se botaba nas terras, que se deitava nas terras, fazia-se ajuntamentos, e gente cantava em conjunto.
Canto gregoriano desde cedo, na catequese infantil.

Um dia, eu vou a Fazendas d'Almeirim e digo a um dos componentes: «Quero aprender o fandango.» E diz o elemento directivo: «Sim, sr., vamos lá aprender o fandango. Eu vou lhe ensinar o fandango e o sr. ensina-me o vira». Quando chegámos ao palco, ele ia começar o fandango, pára e diz-me «Vamos desistir: nem o sr. aprende o fandango nem eu aprendo o vira, porque eu para aprender o vira tenho de ser o homem alegre do Minho e não sou, e o sr. para aprender o fandango tinha de saber andar a cavalo, caír, saber usar as esporas, nom sei que mais...» E portanto eu dei os parabéns: ele deu-me uma lição de folclore com estas palavras, e portanto aqui se percebe que encontrei um elemento que percebe, que sabe. Podia numa brincadeira aprender o fandango, mas vivê-lo nunca. Eu podia o dançar, mas não o vivia. Ele podia dançar um vira minhoto, mas não se ria, num era dibertido, num era o brincalhão que era o minhoto.
 Pois é: a música sacra é para o cristão, não é para os de fora da Igreja. Embora todos aprendamos uns com os outros, o que é certo é que a música sacra se originou na oração e no encontro com Deus: não é um fim em si mesmo, mas sim um fruto de santidade, que por sua vez pode encaminhar outros para a santidade. O cantor deve saber isto para cantar de verdade, com o espírito da vida vivida, para cantar com a boca o que crê com o coração e prová-lo com as obras.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Música da Vigília Pascal da Noite Santa / Dominica Paschae in Ressurrectione Domini ad Vigiliam Paschalem in Nocte Sancta

Cântico para depois da 1ª Leitura, o tracto Jubilate Dómino, aqui cantado pelo eslovaco:

Alegrai-vos no Senhor, terra inteira: servide ao Senhor com alegria. V. Entrai na sua presença em exultação. V. Sabei que o próprio Senhor é Deus. V. Êste nos fez, e não nós a nós mesmos: e nós (sômos) o povo d'Ele, e as ovelhas da Páscoa d'Ele.



Depois da Epístola canta-se a Alleluia Confitémini Dómino, aqui comentada por Tiago Barófio:
VIII modo (sol plagale)

Confitemini Domino quoniam bonus,
quoniam in aeternum misericordia eius
(sal 117, 1)

Al triplice grido del diacono “Lumen Christi” - “La luce di Cristo/La luce è Cristo” – giustamente l’antica liturgia beneventana prevedeva il canto dell’Exultet non all’inizio, bensì alla conclusione della liturgia della Parola – risponde il triplice canto dell’Alleluia, ripetuto anch’esso innalzando la voce. La melodia è breve e semplice (forma: aab - SCHLAGER, ThK 254), s’innesta sul clima gioioso del Gloria in excelsis Deo e funge da introduzione al verso “Confitemini Domino”. Questo è un susseguirsi di onde in una serrata tensione verso l’acuto della dominante re, una scelta per evidenziare il protagonista e alcuni momenti della celebrazione pasquale. 
Al centro dell’affresco sonoro si colloca D-i-o che siamo chiamati a incontrare quale creatore e salvatore. Egli è buono. All’uomo nella Pasqua di Cristo è perciò offerta l’occasione di conoscerlo per quello che Egli è: misericordia senza limiti. Non si tratta di ampliare qualche nozione del catechismo o della riflessione filosofica. La conoscenza di D-i-o o si fa esperienza vissuta oppure si riduce a vuoto inconsistente, sorretto dal nulla e destinato a polverizzarsi nel nulla. L’esperienza della misericordia non è fine a se stessa (com’è bello!). Se è autentica, si traduce necessariamente in moltiplicazione e diffusione e condivisione. Senza porre altra condizione se non l’adesione alla Parola e all’accoglienza del dono gratuito che D-i-o fa di se stesso.
Siamo puntini sparsi nell’universo e sospinti dalle correnti delle dinamiche mondane: potere, denaro, apparenza e tutta la galleria delle proposte insensate di un certo politicume che si fa gioco e umilia le persone in perfide iniziative di “liberazione”. Rischiamo di non aver segnali di riferimento convincenti e sicuri. La liturgia della veglia pasquale viene in soccorso alla nostra debolezza. Argina le falle delle nostre amnesie e distrazioni. Attraverso la liturgia della Parola con le letture, i canti e le preghiere congiunti a ogni proclamazione, siamo ricondotti nel solco della storia reale.
L’orizzonte delle nostre sparute vicende individuali si allarga. Entriamo nell’orizzonte della storia di D-i-o e dell’uomo, a partire dal momento nebuloso e distantissimo della creazione sino ai fatti concreti che hanno visto schiere di protagonisti divenuti collaboratori di D-i-o, talora guastatori e sabotatori del suo disegno. È tutto un andirivieni di persone che assurgono a simboli di fedeltà e tradimento, di perseveranza e abdicazione, di obbedienza e rifiuto, di umiltà e irrisione. 
Oggi non ci troviamo più immersi nella storia d’Israel e della Chiesa antica. Siamo messi con le spalle al muro di fronte a noi stessi. Ciascuno può dischiudere la porta verso la verità del proprio essere e del proprio agire. Gelide ombre si allungano sulla nostra persona, è v ero, ma la luce – che è Cristo – non s’arresta davanti a nessun ostacolo. Penetra negli abissi, scandaglia dietro gli angoli. È una luce che sembra quasi accecare. Provoca reazioni di rigetto suggerite dalle voci suadenti di una squadra specializzata, bene istruita da Berlicche (al riguardo Lewis è più convincente di tanti libri di religione).
Tutto finirebbe miseramente, se non riuscissimo a intravvedere un volto dai mille aspetti: il bimbo Gesù, l’apprendista carpentiere nella bottega di Giuseppe, il figlio di Maria alle nozze di Cana, il maestro itinerante e paziente di un manipolo di dodici disperati randagi, l’accusato di blasfemia, il condannato piegato sotto il patibolo, il re della vita inchiodato dalla morte, la luce radiosa del Risorto… Tanti, quasi innumerevoli sono gli aspetti del Figlio di D-i-o. 
In uno di questi volti ciascuno può riconoscere se stesso. Alleluia! Cristo è risorto. Con Lui anche noi risorgiamo a vita nuova.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Os dias da semana em galego

Na maioria das línguas novilatinas, os nomes dos dias da semana originaram-se nas divindades pagãs em cuja honra tantos cristãos foram martirizados durante o Império Romano:
  • solis dies: dia do Sol
  • lunæ dies: dia da Lua
  • martis dies: dia de Marte
  • mercurii dies: dia de Mercúrio
  • iovis dies: dia de Júpiter
  • veneris dies: dia de Vénus
  • saturni dies: dia de Saturno
 
Coliseu de Roma.

Mas no século VI tivemos um Bispo Santo, São Martinho de Dume (518-79), o qual chegou a Arcebispo Metropolita de Braga e foi um zeloso apóstolo no Reino dos Suevos, outrora situado no noroeste da Península Ibérica, na antiga região romana da Galécia e hoje na actual Galiza e Norte de Portugal Continental, e com capital naquela cidade minhota. A sua memória celebra-se a 22 de Outubro ou a 5 de Dezembro, juntamente com os Santos Frutuoso e Geraldo.

Martinus episcopus bracarensis,
Códice Albeldensis, ca. 976.

Ora, São Martinho de Dúmio considerou indigno de bons cristãos que continuássemos a chamar os dias da semana pelos nomes dos antigos ídolos, e por isso divulgou os nomes do calendário litúrgico cristão:
  • Para o primeiro dia da semana, tomou-se o nome de Dominicus dies, que significa Dia do Senhor e originou o nosso Domingo; havia também a variante feminina Dominica dies, que originou Dominga.
  • Ao dia seguinte, por ser o 2º da semana, féria secunda (ou secunda féria), o que originou na língua portuguesa a segunda feira. Na Antiguidade a palavra féria significava dia livre de trabalho; na Idade Média, o termo feira denominava também o mercado profano em dias de festa.
  • Ao 3º dia, tértia féria originou a terça feira, pelas mesmas razões.
  • Ao 4º dia, quarta feira.
  • Ao 5º dia, quinta feira.
  • Ao 6º dia, sexta feira.
  • Ao 7º dia, deu-se o nome de Sábado, herdado da tradição judaica do Shabat, o dia em que Deus descansou da obra da Criação.

Na verdade, entre as línguas europeias, estas denominações cristãs são exclusivas do Português, do Galego e do Mirandês; para além destas, a outra excepção é o Grego, língua intimamente ligada ao dealbar do Cristianismo.

Este facto testemunha claramente a eficácia do Apostolado ocorrido durante a Idade Média nos territórios da Galiza e de Portugal. Provam o quão fundo a Fé Cristã pode penetrar na Cultura, mesmo nos seus aspectos mais prosaicos, transformando-lhe os elementos pagãos e reordenando-os em direcção ao Deus Vivo e Verdadeiro.

Lamentavelmente, vim a saber que hoje, na Galiza, as mais novas gerações esqueceram os nomes cristãos herdados de seus antepassados para os dias da semana:



É curioso que os últimos dias da semana a serem "repaganizados" pela língua castelhana nesta região foram a corta feira e a sexta feira, possivelmente pela importância que a Quarta Feira de Cinzas e a Sexta Feira Santa têm no Calendário Litúrgico.

4ª Feira de Cinzas no Missal bracarense de 1924.


Pessoalmente, a mim, que falo português e sou cristão católico, escandaliza-me ouvir falarem de Vernes Santo: porventura será santo este dia por ser dedicado a Vénus, a deusa da luxúria? Não, este dia é santo porque nele morreu Nosso Senhor Jesus Cristo, no 3º dia antes de ressuscitar, portanto no 6º dia da semana: daí a 6ª Feira Santa.

6ª Feira Santa no Missal bracarense de 1924.

Acontece que os dias da semana quando ditos cristãmente lembram-nos que o Domingo é o 1º dia da semana e alguém disse que é tão-bém o 8º dia, porque de Deus viemos e para ele vamos.

Por isso, se alguns de vós que nos lêdes sois galegos, sabêde que tamém a vós se dirigem as palabras dêste blogue, por exemplo as melodias gregorianas em língua portuguesa (ou galega, ou galaico-portuguesa) que temos transcritas para uso na Liturgia. E vos pedimos: polo bem da nossa cultura comum e pola maior consciência cristã nas cousas sociais, empregade as tradicioniais formas galegas dos dias da semana.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A música ouvida por Fernão Mendes Pinto

O aventureiro Português, a páginas tantas da sua Peregrinação pelo Extremo Oriente, descreve a Missa cantada que o herói António de Faria ouviu aquando do seu triunfal recebimento, a um Domingo de 1542, na povoação portuguesa de Liampó, na China.

Note-se que na época a Liturgia era celebrada em Latim, excepção feita aos sermões, e aos vilancetes, que eram pequenos poemas em língua vernácula; as orações cantavam-se em canto chão, isto é a uma só voz (canto gregoriano tardio), alternado com o canto d'órgão, ou seja a múltiplas vozes com ou sem o acompanhamento de instrumentos musicais de sopro ou corda (polifonia do Renascimento).

Quem na Liturgia de hoje cantar o gregoriano ou a polifonia saberá por experiência que o que vem adiante narrado não é mentirosa ficção nem desvirtuada paixão.
Capítulo 69
De que maneira António de Faria foi levado à Igreja, e do que passou nela até a Missa ser acabada.
Abalando-se daqui António de Faria, o quiseram levar debaixo de um rico pálio, que seis homens dos mais principais lhe tinham prestes, porém ele o não quis aceitar, dizendo que não nacera para tamanha honra como aquela que lhe queriam fazer, e seguiu seu caminho sem mais fausto que o primeiro, que era acompanhá-lo muita gente assi Portuguesa, como da terra, e doutras muitas nações que ali por trato de mercancia era junta, por ser este o milhor e o mais rico porto que então se sabia em todas aquelas partes, e levava diante de si muitas danças, pélas, folias, jogos, e antremeses de muitas maneiras que a gente da terra que connosco tratava, uns por rogos, e outros forçados das penas que lhes punham, também faziam como os Portugueses, e tudo isto acompanhado de muitas trombetas, charamelas, frautas, orlos, doçainas, harpas, violas d'arco, e juntamente pífaros, e tambores, com um labarinto de vozes à Charachina de tamanho estrondo que parecia cousa sonhada. Chegando à porta da igreja, o saíram a receber oito padres revestidos em capas de brocado e telas ricas, com procissão cantando Te Deum laudamus, a que outra soma de cantores com muito boas falas respondia em canto d'órgão tão concertado quanto se pudera ver na capela de qualquer grande Príncipe. Com este aparato foi muito devagar até a capela mor da igreja, onde estava armado um dorsel de damasco branco, e junto dele ũa cadeira de veludo cramesim com ũa almofada aos peis do mesmo veludo. E assentando-se nesta cadeira ouviu Missa cantada oficiada com grande concerto, assi de falas, como de instrumentos músicos, na qual prégou um Estêvão Nogueira que aí era Vigairo, homem já de dias e muito honrado, mas como ele pelo descostume andava mal corrente na prática do púlpito, e de si era fraco oficial, e pouco ou nada letrado, e sôbre isto vão e presuntuoso de quasi fidalgo, querendo então, por ser dia sinalado, mostrar quanto sabia, e quão reitórico era, fundou todo o sermão em louvores somente de António de Faria, com ũas palavras tão desatadas, e por uns termos tanto sem concerto, que enxergando os ouvintes em António de Faria, que estava corrido e quasi afrontado, lhe puxaram alguns seus amigos pelo sobrepeliz três ou quatro vezes para que se calasse, e caindo ele no que era, como homem acordado na briga, disse alto que todos o ouviram, fingindo que respondia aos amigos: «Eu falo verdade no que digo, pelos Santos Evangelhos, e por isso deixai-me, que faço votos a Deus de dar com a cabeça pelas paredes por quem me salvou sete mil de cruz que mandava de emprego no junco, os quais o pêrro do Coja Acém me tinha já levado pelo pau do canto como jogador de bola, que mau inferno lhe dê Deus na alma lá onde jaz, e dizei todos Amén.» E com esta desfeita foi tamanha a risada na gente que não havia quem se ouvisse na igreja. Despois que o tumulto foi calado, e a gente quieta, vieram seis mininos da sancrestia, em trajos de Anjos com seus instrumentos de música todos dourados, e pondo-se o mesmo padre em joelhos diante do altar de Nossa Senhora da Conceição, olhando para a imagem com as mãos alevantadas, e os olhos cheios de água, disse chorando em voz entoada e sintida, como que falava com a imagem: «Vós sois a rosa, Senhora», a que os seis mininos respondiam: «Senhora, vós sois a rosa», descantando tão suavemente cos instrumentos que tangiam, que a gente estava toda pasmada e fora de si, sem haver quem pudesse ter as lágrimas, nascidas da muita devação que isto causou em todos. Após isto, tocando o Vigairo ũa viola grande ao modo antigo, que tinha nas mãos, disse com a mesma voz entoada algũas voltas a este vilancete, muito devotas e conformes ao tempo, e no cabo de cada ũa delas respondiam os mininos «Senhora, vós sois a rosa», o que a todos geralmente pareceu muito bem, assi pelo concerto grande da música com que foi feito, como pela muita devação que causou em toda a gente, com que em toda a igreja se derramaram muitas lágrimas.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Missa no Sacramento

O Reverendo Padre Armindo Borges ausentar-se-á nas próximas semanas para o estrangeiro, pelo que não poderá celebrar connosco a habitual Missa Dominical Cantada em Latim e Canto Gregoriano na Igreja do Santíssimo Sacramento junto ao Convento do Carmo em Lisboa ao meio-dia e um quarto. Regressará em finais do corrente mês, retomando a Missa no Sacramento no dia 1 de Fevereiro.

Já agora anunciamos que, nos próximos dias 21 e 22 de Março, a Paróquia dos Mártires receberá um côro de musicólogos alemães amigos do Padre Armindo, respectivamente na Basílica dos Mártires às 18h e na Igreja do Sacramento ao 12h15, para a celebração solene da Eucaristia do 1º Domingo da Quaresma.

Esta será uma rara oportunidade, que a todos apelamos a aproveitar, de celebrar a Santa Missa com o fausto e a dignidade que a Tradição prescreve.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Música do dia 1 de Janeiro, Solenidade da Santa Mãe de Deus, a Virgem Maria

Aleluia Post partum, aqui comentada por Tiago Barófio:

Post partum, virgo inviolata permansisti. Dei genitrix, intercede pro nobis
(mi plagale - IV modo)

Otto nuovi testi sono stati inseriti sulla melodia originale dell’Alleluia Post partum diffuso in tutta l’Europa latina. Lo iubilus – il melisma su Alleluia – è costituito da due sezioni ripetute con varianti (a a’ b b’), l’ultima delle quali (b’) costituisce il nucleo di una formula che caratterizza il verso con l’innesto DO MI SOL la (inVIOLAta, DEI GENITRIX). La parola chiave e centrale del breve testo è l’espressione teologicamente rilevante (Dei) genitrix con l’ampio melisma (c c d).
La Chiesa nel tempo ha modificato la prospettiva liturgica del 1 gennaio. Memoria della circoncisione di Gesù – il quale proprio con il rito dell’uso ebraico s’inserisce pienamente in quella tradizione –, il primo giorno dell’anno è stato scelto anche per rinnovare la fede in Cristo con un distacco netto e definitivo dalle abitudini idolatriche pagane. Oggi è stata ricuperata la celebrazione di Maria, venerata quale madre di D-i-o.
Molteplici vicende storiche e varie riflessioni teologiche hanno portato a ingigantire la presenza della vergine Maria nell’economia della salvezza e nella vita della Chiesa. Nel mondo latino ciò è successo quale conseguenza di un’atrofizzata sensibilità pneumatologica che ha finito per riversare sulla “figlia di Sion” aspetti che in primo luogo caratterizzano lo Spirito santo. In queste vicende hanno pesato due fatti non trascurabili. 
1] La dimensione femminile: essa segna non solo la struttura umana, ma è intrinseca alla natura stessa di D-i-o il quale non può essere ridotto a un prototipo maschile e, tanto meno, maschilista. Sarebbe un’ennesima caricatura e svierebbe dalla ricerca e dall’incontro con D-i-o. 
2] “S/spirito” nelle lingue semitiche è un sostantivo femminile. Fatto non trascurabile, anche perché facilita la comprensione della dimensione materna di D-i-o, come insegnano i Padri delle Chiese orientali, in primis quelli della tradizione siriaca. 
Chiarito questo punto nodale, momento necessario per evitare malintesi e il rischio di incorrere in aberranti forme di idolatria e di superstizione, ascoltiamo il cantore e quanto egli proclama a nome della Chiesa. Maria è presentata dall’evangelista san Luca come una ragazza spensierata d’Israel. Svolge le sue funzioni sociali come figlia nella casa paterna e aspetta di conoscere un uomo e divenire madre. Non ha grilli per la testa, non si pavoneggia per le proprie doti, non ha pretese. Osserva, ascolta, attende. Vive lo sbigottimento quando le parole di un messaggero la intontiscono. “Non può essere… Non può essere vero…”. Non recalcitra, non fugge, non rifiuta. Ascolta l’angelo, ascolta la voce del proprio cuore. “Sì, avvenga in me secondo la tua parola”.
Ciò che la creatura non può immaginare, quanto non é umanamente possibile, è compiuto dallo Spirito di D-i-o. Vergine, rimane inviolata, integra in tutto il suo essere. Corpo e spirito sono il tempio che accoglie il Figlio di D-i-o. Ante et Post partum, virgo inviolata permansisti.
All’inizio di un nuovo anno, tutti gli anni, la Chiesa suggerisce di affidarci all’intercessione di Maria. Lei sola può accompagnarci nella sequela di Cristo suggerendoci i passi da compiere per scovare spazi di solitudine orante dove possiamo ascoltare la voce di D-i-o. Alla scuola di Maria anche noi, se non siamo ancora capaci, dobbiamo imparare ad accogliere la Parola senza recalcitrare, senza fuggire, senza rifiutarla. Allora anche nel nostro cuore nascerà il Figlio di D-i-o. Con Maria faremo l’esperienza della vita in Cristo e saremo meglio disposti ad affrontare il cammino, forse impervio e spesso sconosciuto, di un nuovo anno. Dei genitrix, intercede pro nobis.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Memória de São Bonifácio, 5 de Junho

Nasceu na Inglaterra, cerca do ano 673. Fez a profissão religiosa, adoptando o nome de Vinfredo, e viveu como monge no mosteiro de Exeter. Vindo da Inglaterra para Roma, foi recebido pelo papa Gregório II, que o ordenou bispo; tomando o nome de Bonifácio, foi enviado no ano 719 à Alemanha para anunciar o nome de Cristo àqueles povos, e obteve excelentes resultados. Governou a Igreja de Mogúncia e, com a ajuda de vários colaboradores, fundou ou restaurou diversas Igrejas na Baviera, na Turíngia e na Francónia; também convocou concílios e promulgou leis. Quando evangelizava em Dokkum, na Frísia, actualmente na Holanda, foi massacrado à espada por gentios furiosos, e consumou o martírio. O seu corpo foi sepultado no mosteiro de Fulda.

A este Santo foi dedicada a mais antiga música polifónica cuja partitura chegou aos nossos dias; êste cântico data do início do século X (900 d.C.) e foi descoberto recentemente pelo estudioso João Varélio: é a antífona Sancte Bonifati martyr.

São Bonifácio, mártir ínclito de Cristo,
pedimos-te que nas tuas preces te dignes sempre
confiar-nos as graças de Deus.

Transcrição moderna:



A antífona cantada por Lívio Tíclio e Marcelo Macétio, do coral da Palma em Cremona:




Outra intepretação, de Quintino Cerveja e João Clafão, do colégio de São João de Cambridge:




Permiti, Senhor, que, por intercessão de São Bonifácio, possamos manter sem desfalecimento e proclamar na nossa vida a fé que ele ensinou com a palavra e confirmou com o sangue do martírio. Por Nosso Senhor.
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