domingo, 17 de junho de 2018

Crítica a um côro gregoriano principiante

Foi com grande alegria que recebi do amigo Hélio Rosas a gravação da Santa Missa do 11º Domingo do Tempo Comum, celebrada pelo Reverendíssimo Padre Fabiano Cabral na Igreja Matriz da Paróquia de São Vicente de Paula de Maués em Vitória de Santo Antão em Pernambuco, no Brasil. O ministério coral ficou a cargo da Escola de Canto Gregoriano Santa Cecília, residente em Olinda, e dirigida por Adauto Félix da Hora:



A apreciação global que faço é muito positiva. Trata-se de um côro principiante, que conseguiu efectivamente cumprir todo o texto litúrgico, pronunciando-o claramente, a canto gregoriano, sem cometer nenhum erro fatal, e integrando-se pacificamente na cerimónia com a comunidade. Tenho a certeza que têm grande potencial, e, portanto, merecem uma crítica.

Eis alguns aspectos gerais para melhorar. O principal é a insegurança das vozes, que se notou praticamente em todos os cânticos. O fluxo da interpretação foi, para o meu gosto, demasiado lento e pesado, isorrítmico, muito à "cantochão". Se bem que na verdade a maioria dos córos gregorianos opte por esta estética, cabe aqui recordar as palavras do Monsenhor Domenico Bartolucci, quando disse que o canto «gregoriano de otrora sabia ser também canto do povo, cantado com força como com força o nosso pôvo exprimia a sua fé.» Ou seja, há que trazer para o canto sacro a expressividade do canto tradicional, das sinfonias, da ópera, do jazz, em suma, de toda a boa música. E ler Dom Eugénio Cardine.

Na práctica, aconselho que todos os membros do côro cantem um íson ou bordão, enquanto o Mestre só ou com mais algum elemento da sua escolha canta o reportório propriamente dito. O íson ou bordão é algo muito fácil de fazer. Consiste em cantar uma mesma nota contínua, em geral a nota final da peça (finalis). Aconselho a começar o íson antes e só depois começar o cântico propriamente dito (incipit); e no fim acabar primeiramente a melodia principal e só depois o íson. O íson pode ser feito com a boca fechada, em m, e quando o côro ganhar mais confiança, um ou mais cantores podem proferir também o texto, ao mesmo tempo que a voz principal. Com mais confiança ainda, o íson pode não cantar-se em toda a peça, havendo momentos em que se o canta, e outros em que se cala, e também fazer pequenas inflexões em momentos especiais, favorecendo uma maior expressividade e destacando os texto e melodia principais.

Aconselharia igualmente absterem-se de usar o órgão, e integrar o organista no íson. O órgão faz sentido na música sacra não apenas como acompanhamento, mas sobretudo como organum, como verdadeira polifonia, o que é apenas para os agrupamentos mais entendidos (cfr. artigo prévio); até lá, ficam melhor sem ele.

A indumentária dos cantores deve ser mais formal (camisa com gravata ou laço), ou litúrgica (como a dos acólitos). A partitura deve ser única, impressa em grande formato (A3) e exposta em suporte elevado à altura da cabeça; e as folhas individuais eliminadas. O sotaque do latim deve ser não o italiano mas o brasileiro da região, o que em justiça se notou nalguns passos do Glória e Credo, mas fiquei sem perceber se tal foi intencional. Nos momentos certos devem fazer-se as respectivas inclinações e persignações (cfr. cerimonial do acólito). A localização do côro não percebi onde ficou, mas havendo côro-alto deve ser esta. Os microfones devem apenas servir para a gravação e transmissão da cerimónia e não para ampliar o canto. Já agora, nota muito positiva para a realização do vídeo e respectiva partilha na internet.

Passemos, então, ao reportório propriamente dito.

O Intróito tomou o texto do Missal (idêntico ao do Gradual Romano), em língua portuguesa, e aplicou-lhe uma composição silábica do 7º modo (o mesmo do Ĩt. deste Domingo, Exaudi ... adjutor), cuja origem não consigo identificar (possivelmente do Graduale Simplex ou dalguma publicação monástica brasileira?), mas formalmente típica da Liturgia das Horas, com o texto doutro versículo diverso do intróito gregoriano autêntico. A adaptação está muito bem conseguida, classificando-se como um cântico gregoriano simples em vernáculo. A melhorar apenas a troca do verso pelo original, e na doxologia "Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio e agora e sempre" acrescentar "e pelos séculos dos séculos" antes do "Ámen"; e, claro, cantar o intróito autêntico, quando fôr tempo disso.

O Kyrie foi o número XI B no actual G.R. e lá indicado para os Domingos do Tempo Comum. Boa escolha. A melhorar o facto de cada invocação ter sido cantada apenas duas vezes e não três, como é tradicional; bem sei que os Missal e Gradual modernos prescrevem a forma dupla, mas o Gradual prevê também que aquelas versões cuja composição seja diferente a cada uma das repetições triplas (p.ex. Kyrie XV) possam cantar-se 3x3. Eu diria que qualquer Kyrie se pode cantar 3x3, mesmo na forma ordinária, mas se houver algum escrúpulo com esta matéria facilmente se resolve o assunto trocando para outra versão.

O Glória in excelsis foi o IV ad lib. (more ambrosiano), aparentemente boa escolha para um côro iniciante, mas mais arriscado nos neumas decorativos. A versão número XI é mais fácil do que parece, se atentarmos que cabe perfeitamente num hexacordo de solmização (natura gravis).

O Salmo Responsorial tomou o texto do Leccionário em português, aplicando às estrofes a fórmula do tom salmódico do 5º modo da Liturgia das Horas, e ao refrão a sua entoação inicial e cadência mediana, repetidas bis. O resultado final é bastante satisfatório, creio até mais fácil e funcional do que as soluções que ofereci para um S.R. em vernáculo (cfr. artigo prévio). Obviamente que melhor do que S.R. é o Responsório Gradual autêntico, mas compreendo a preferência pela forma mais divulgada hoje em dia. Apontaria apenas a diferença entre o refrão que se cantou por Bmole e as estrofes que se cantaram por Bquadro (descoordenação e dissonância com o órgão). O correcto seria cantar o refrão por Bmole, e explico porquê: 1º) toda a melodia caberia num hexacordo de solmização (molle gravis), i.e. poderia solfar-se ut mi sol sol sol la sol, sol la fa sol mi; 2) nos modos de Ffaut (5º e 6º), o B é a 4ª acima da finalis, ou seja cantar Bquadro seria fazer trítono com a finalis, o que é proibido quer se trate de canto monódico, quer acompanhado dum eventual íson na finalis Ffaut; este facto era de tal modo evidente para os cantores do passado, que em modo de Ffaut era raro assinalar-se o sinal de Bmole, e os tratados falam disso; por esta razão, possivelmente os códices que serviram de fonte às edições litúrgicas do século XX aparecem sem o tal Bmole.

A Aleluia tomou o refrão da Al. Domine in virtute tua do 6º modo, prescrita pelo G.R. para o 11º Domingo. Pessoalmente não gosto que se repita o incipit da mesma. O verso cantou-se do Leccionário (texto diverso do G.R.), aplicando-lhe uma melodia silábica no mesmo 6º modo, cuja publicação desconheço, mas muito bem conseguida.

Belo e inspirador sermão, seguido do Credo III, talvez escolhido por ser o mais conhecido actualmente, e interpretado com algumas faltas menores que depressa se dissiparão. Concordo com a ausência de música na "oração universal / dos fiéis".

O Ofertório terá tido a mesma fonte do intróito, desta vez uma antífona do 5º modo (com um arrojo plagal na cadência). A qualidade musical da antífona é inegável. Também aqui os BB dos versos deveriam ter sido moles, pelas mesmas razões apontadas para o S.R.. Texto diverso do proposto pelo G.R. mas com ligação directa ao Evangelho.

Sanctus XI, agrupado com o mesmo número do Kyrie. Mais atenção às liquescências diminutivas, que deveriam pronunciar-se apenas com consoante e não com vogal.

Pater noster, em latim, no tom A, o mais conhecido.

Agnus Dei também XI. Aqui notou-se muito o incipit dado pelo órgão, seguindo-se a entoação a medo. Nota-se também o desejo de cumprir as rubricas e obedecer aos asteriscos, o que será porventura louvável; contudo creio que toda a peça poderia ser cantada por todos. Lembre-se que na tradição não havia asteriscos e os incipit do ordinarium eram omitidos dos livros do côro (porque eram cantados pelo Celebrante) apenas no Glória e Credo, e não nas restantes peças nem no Agnus, durante o qual o Celebrante está ocupado fracturando o Pão. Reforça-se então a sugestão do íson, e que haja uma maior energia no canto.

A Comunhão terá a mesma origem dos intróito e ofertório, assumindo desta vez o 6º modo, e o mesmo texto da Comunhão autêntica. Deixo a mesma ressalva para a doxologia trinitária dos versos. Excelente composição. Note-se, já agora, que o versos (versão alt. do 6º tom da L.H.) não tocando no Bquadro não geram o efeito dissonante atrás descrito para outras peças. O tropo melógeno pelo órgão no final da Comunhão foi de bom gosto. Côro e organista devem também comungar, e se para tal necessário fôr faça-se algum silêncio sagrado.

A Salve Regina depois da Missa, não estando prescrita, é uma devoção que recebi do Reverendíssimo Padre Doutor Armindo Borges e igualmente pratico. Para além de louvar a Virgem, creio ser também útil para manter o ambiente de oração durante a saída dos fiéis.


Em jeito de conclusão, nota-se que houve uma opção clara por um proprium simples vernacular, e um ordinarium também acessível em latim, opção esta bem compreensível nesta fase. A questão que se coloca é: em que sentido evoluir? Tudo dependerá das oportunidades e da perseverança dos músicos. Ao longo desta crítica (que pretendi ser construtiva!) fui deixando várias sugestões, às quais acrescento que se adquira maior confiança na solmização (cfr. artigo prévio).

Uma vez mais, congratulo este pequeno grande côro, e desejo a todos as maiores felicidades no ministério musical, sempre para a maior glória de Deus!
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