terça-feira, 8 de março de 2011

Bento XVI cita Bernardo de Claraval sobre o imperativo de bem cantar

Palavras de Bento XVI, do discurso proferido ao mundo da cultura em França, por ocasião da sua visita pastoral de Setembro de 2008, através das quais assinala o grave dever que pende sobre os músicos litúrgicos de bem cantar a Liturgia.

Nota: chegámos a estas palavras do Papa através do sítio dos Cantori Gregoriani (cf. video infra), mais concretamente através da leitura de um texto ao qual havemos de dedicar mais atenção.
«Para [São] Bento [de Núrsia], valem como regra determinante para a oração e para o canto dos monges estas palavras do SalmoCoram angelis psallam Tibi, Domine: «Na presença do anjos Vos hei-de cantar, Senhor» (cf. 138,1). Aqui se exprime a consciência de, na oração comunitária, cantar na presença de toda a cohorte celeste e, consequentemente, de estar sujeito ao critério supremo: rezar e cantar de modo a poder unir-se à música dos espíritos sublimes, considerados os autores da harmonia do cosmos, da música das esferas celestiais. Partindo daqui, é possível compreender a severidade de uma meditação de São Bernardo de Claraval, que usa uma palavra da tradição platónica, transmitida por Sto. Agostinho, para julgar o canto mal executado pelos monges, coisa que, na sua perspectiva, não era, de modo algum, de somenos. S. Bernardo qualifica a cacofonia de um canto mal executado como uma queda na «zona da dissemelhança», na regio dissimilitudinis. Sto. Agostinho tomara esta palavra da filosofia platónica para caracterizar o estado em que a sua alma se encontrava antes da sua conversão (cf. Confissões, VII 10.16): o homem, ser criado à semelhança de Deus, cai, em consequência do seu abandono de Deus, na «zona da dissemelhança», num afastamento de Deus, de tal ordem que deixa de ser Seu reflexo, tornando-se não apenas dissemelhante de Deus, mas também da sua verdadeira natureza de homem. S. Bernardo é, evidentemente, severo ao recorrer a esta expressão, que indica a queda do homem para longe de si mesmo, para qualificar o canto mal executado pelos monges, mas demonstra a que ponto leva o assunto a sério. Demonstra que a cultura do canto é também cultura do ser, e que os monges, com as suas orações e cânticos, devem corresponder à grandeza da Palavra que lhes está confiada, ao seu imperativo de verdadeira beleza. Desta exigência cardeal de falar com Deus e de O cantar com as palavras que Ele mesmo doou, nasceu a grande música ocidental. Não se tratava de uma obra da «criatividade» pessoal, com a qual o indivíduo, tomando como critério essencial a representação do seu próprio eu, ergue um monumento a si próprio. Tratava-se, isso sim, de reconhecer intimamente, com os «ouvidos do coração», as leis constitutivas da harmonia musical da criação, as formas essenciais da música impressas pelo Criador no mundo e no homem, e criar, desse modo, uma música digna de Deus, que seja, ao mesmo tempo, verdadeiramente digna do homem e que proclame de modo elevado a sua dignidade.»
Nota: tradução do original francês a partir da tradução portuguesa do sítio da Santa Sé, que nos pareceu pouco correcta e deselegante.



Ave Regina cælorum (Antífona mariana de Quaresma)


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