quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Introdução à Solmização

A solmização (ou solfa) é o mais antigo método de solfejo. Foi criado pelo monge Guido de Arezo no século XI, e influenciou profundamente o ensino, a práctica, e a composição da música desde então. É um recurso de enorme utilidade ao canto gregoriano: canto-chão, contraponto, e canto-d'órgão (polifonia do Renascimento), e também ao domínio da instrumentação em música antiga.

O método que aqui se apresentará foi recuperado a partir das fontes antigas (tratados, iconografia, etc.) pelo Professor Isaac Alonso de Molina, o qual tem ensinado pessoalmente os seus alunos (sendo eu o menor de todos).

Para treinardes este método à distância, publicaremos nesta página vários vídeos filmados no côro-alto da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Ferragudo (Agradecimentos: Reverendo Padre Miguel Ângelo, Sr. Carlos Almeida), alguns dos quais contendo enganos que um aluno atento facilmente detectará e corrigirá. Os esquemas foram criados pelo zeloso aluno Felipe Gomes de Souza Araújo partindo do material gentilmente cedido pelo Professor Isaac. Guardai esta página nos vossos favoritos e visitai-a no futuro. Sendo este um assunto eminentemente práctico, os interessados poderão pedir-me mais informações e esclarecimentos pelos canais habituais (comentários, email, Messenger, Skype, Whatsapp, Hangouts, etc.).


O Hexacordo

É um conjunto de 6 cordas consecutivas. Cada corda está sempre separada da vizinha por um tom, excepto a 3ª da 4ª, que estão sempre a meio-tom uma da outra.

UT  1   RE   1   MI ½ FA  1   SOL  1  LA


    Praticai os seguintes exercícios:
    • Escala para cima e para baixo:
      UT RE MI FA SOL LA, LA SOL FA MI RE UT.
    • Intervalos:
      UT RE, UT MI, UT FA, UT SOL, UT LA;
      LA SOL, LA FA, LA MI, LA RE, LA UT.
    • Terças:
      UT RE MI, UT MI; RE MI FA, RE FA; MI FA SOL, MI SOL; FA SOL LA, FA LA;
      LA SOL FA, LA FA; SOL FA MI, SOL MI; FA MI RE, FA RE; MI RE UT, MI UT.
      UT MI, RE FA, MI SOL, FA LA; LA FA, SOL MI, FA RE, MI UT.
    • Quartas:
      UT RE MI FA, UT FA; RE MI FA SOL, RE SOL; MI FA SOL LA, MI LA;
      LA SOL FA MI, LA MI; SOL FA MI RE, SOL RE; FA MI RE UT, FA UT.
      UT FA, RE SOL, MI LA; LA MI, SOL RE, FA UT.
    • Quintas:
      UT RE MI FA SOL, UT SOL; RE MI FA SOL LA, RE LA;
      LA SOL FA MI RE, LA RE; SOL FA MI RE UT, SOL UT.
      UT SOL, RE LA; LA RE, SOL UT.
    • Sextas:
      UT RE MI FA SOL LA, UT LA; LA SOL FA MI RE UT, LA UT.
      UT LA, LA UT
       

    Hexacordos Naturais

    Têm a sua 1ª (UT) em C.
    Portanto, o semitom aparece entre E e F.
     

    Natura gravis




      

    Natura acuta





    Hexacordos duros

    Têm a sua 1ª em G.
    Portanto, o semitom aparece entre B e C.
    Logo, o B é chamado de durum ou quadratum: ♮

    B-durum gravis

    À 1ª corda chamamos Γ (Gamma) pois é a letra equivalente ao G no alfabeto grego. Foram os gregos que inventaram a teoria musical.

     


     

    B-durum acutum

        


    B-durum super acutum

    O e' sobreagudo (LA) está no dorso da mão, na articulação interfalângica distal, do lado oposto ao d' (SOL).



    Hexacordos moles ou brandos

    Têm a sua 1ª em F.
    Portanto, o semitom aparece entre A e B.
    Logo, o B é chamado de molle ou rotundum: ♭

    Molle gravis

      

      

    Molle acutum



    "Mutanças" (mutações ou mudanças)


    Practicai os seguintes exercícios:
    • Escala para cima e para baixo:
      À 5ª: UT RE MI FA SOL [LA=]RE MI FA, FA MI [RE=]LA SOL FA MI RE UT.
      À 4ª: UT RE MI FA [SOL=]RE MI FA SOL, SOL FA [MI=]LA SOL FA MI RE UT.
    • Terças, Quartas, Quintas e Oitavas.
      (mudando à 5ª e à 4ª)
    • Prestai muita atenção a onde se coloca o meio-tom (sempre MI-FA).
      

    À 5ª

     
    SOL RE ao subir
    MI LA ao descer
      

    Na mutação à 5ª, a 4ª fa-sol-re-mi é uma 4ª aumentada (trítono): fa contra mi, diabolus in musica, intervalo proibido.

    À 4ª


    FA RE ao subir
    FA LA ao descer



    Na mutação à 4ª, a 5ª mi-fa-re-mi-fa é uma 5ª diminuta: mi contra fa, diabolus in musica, intervalo proibido.
     

    Mutações subindo dos hexacordos naturais para os duros

    Sempre à 5ª.
      

    Natura gravis, durum acutum



     

    Natura acuta, Durum super acutum

      

    Mutações subindo dos hexacordos duros para os naturais

    Sempre à 4ª.
     

    Durum gravis, Natura gravis



     

    Durum acutum, Natura acuta

     
      

    Mutações subindo dos hexacordos naturais para os moles

    Sempre à 4ª.
     

    Natura gravis, Molle gravis



    Natura acuta, Molle acutum

     

    Mutações subindo dos hexacordos moles para os naturais

    Sempre à 5ª.
     

    Molle gravis, Natura acuta

     


    O Gammut e a Mão Guidoniana


    "Gamma Ut"

    Cada corda pode ter um ou mais nomes conforme o hexacordo em que estejamos.
      







    A Mão de Guido d'Arezzo

     
    Manus Guidonis



        Para dominar este método:

        • Repetir todos os exercícios q.b..
        • Solmizar com a mão esquerda,
          com as duas mãos simultaneamente,
          e com a mão direita sozinha.
        • Com os olhos abertos
          e com os olhos fechados.
        • Cantando
          e em silêncio.
        • Com as palmas da mão viradas para a cara,
          com uma virada para a cara e a outra para a frente,
          e com as duas para a frente.
        • Com as mãos no ar,
          ao nível da cara,
          e atrás das costas.
        • Treinar a obediência à afinação dada pelo 1º cantor (incipit):
          Solmizar todos os hexacordos e mutações partindo da mesma altura;
          repetir este exercício partindo doutras alturas diferentes.
        • Treinar a máxima extensão vocal:
          Escolher uma altura suficientemente grave em que partindo da corda mais grave (Γ) se consiga cantar até à mais aguda (ee) passando por todas as que entre elas estão e solmizando todos os hexacordos e mutações da mão de Guido. A tessitura normal de um cantor deveria abranger toda uma mão (20ª).
           

        Regras adicionais para se usarem somente quando cantando a partir de partituras originais (facsimile de documentos históricos): 

         

        Una super la est semper fa.

         
        Sempre que fôr necessária cantar só uma corda imediatamente acima do hexacordo em que estamos a cantar, não é preciso mutar, cantando essa nota como um fa, meio-tom acima do la: ut re mi fa sol la fa.
        • P.ex. se estamos a recitar em a e aparece um b isolado sem indicação de b-molle, assumimos que será mole, e cantamos la fa la
         

          Clausula finalis

           
          Na cadência final de uma peça, se a corda final fôr precedida por uma corda inferior num grau contíguo, essa corda pode ser cantada a meio-tom de distância da corda final i.e. na notação moderna receberia um sustenido #. Excepções:
          • Quando a corda final seja mi (pois o meio-tom fa está imediatamente acima).
          • Quando o intervalo que se cantar para atingir essa corda resultar num intervalo proibido: 4ª diminuta, 4ª aumentada (trítono) ou 5ª diminuta.
          • Quando em contraponto a cláusula finalis resultar em dissonância com as outras vozes.
           

              Algumas razões pelas quais este método de solfejo é mais apropriado para a música sacra (para além do que já foi dito)

                 
                • O canto gregoriano é música recta, i.e. maioritariamente sem acidentes nem alterações.
                • Todos os intervalos possíveis permitidos se treinam com este método.
                • Algumas peças têm um âmbito de uma 6ª, exactamente onde encaixa um hexacordo de Guido (p.ex. Comunhão Tu mandásti, molle gravis).
                • Ainda que a maioria tenha um âmbito um pouco maior (cerca de uma 8ª), a maioria dos segmentos de cada peça podem cantar-se sem ser necessário mudar de hexacordo (economia de mutações).
                • Fica fácil cantar paralelismos à 5ª (ou à 4ª).
                   

                Solmização do Reportório Gregoriano

                   
                  • Identificar a corda de recitação / arquitectural ou estrutural / tenor salmódico da peça em causa.
                    • Peças sem modo atribuído: será a corda mais vezes cantada, aquela em que se repetem consecutivamente várias sílabas.
                    • I modo: A
                    • II modo: F
                    • III modo: B durum
                    • IV modo: A
                    • V modo: C
                    • VI modo: A
                    • VII modo: D
                    • VIII modo: C
                  • Todas as peças ao longo duma celebração terão a sua corda de recitação enoada sempre à mesma altura. Uma altura cómoda para a maioria dos córos será a que corresponde ao nosso A moderno (440 Hz) dado na Igreja pelo diapasão ou instrumento (la2 vozes graves ou la3 crianças). Há no entanto liberdade para escolher outra corda, desde que seja a mesma ao longo da celebração.
                  • Ouvir essa altura e dar-lhe em voz baixa o nome de solmização que recebe a corda de recitação da peça que cantaremos.
                  • Solmizar o intervalo desde a corda de recitação até à primeira corda.
                  É o que farei ao longo de vários vídeos que divulgarei no meu canal pessoal no youtube. Subscrevei-o para ficardes a par. Cada vídeo será incrustado no postal a que pertence; ficarão todos agrupados pela etiqueta Solmização.

                    2 comentários:

                    1. Muito obrigado, esta página foi muito útil para a minha compreensão da solmização!

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                      Respostas
                      1. Muito obrigado! Se achar útil inscreva-se na nossa Turma de Gregoriano em Linha. Bem haja, http://migre.me/wjLM6

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