Tradução portuguesa do artigo apresentado por Dom Alberto Turco no curso intensivo de verão em Pádua em Agosto de 2025. Para mais informações sobre o curso de 2026: notícia Memorare.
Posto isso, é importante distinguir os neumas gerais dos neumas comummente denominados de «especiais». Os neumas gerais (punctum, virga) são suficientes, em sentido geral, para desenhar a linha melódica; os neumas especiais (qüilisma, oriscus, stropha, trigon) acrescentam à linha melódica algumas precisões e matizes expressivas.
A. Os neumas gerais: punctum, virga
Derivam dos acentos gramaticais, grave ou agudo, que representavam o elemento musical (cantilação) da escrita literária e que, de modo totalmente natural, foram adoptados pelos músicos para significar os correspondentes movimentos (grave, agudo) da melodia. As suas diferentes combinações geram os neumas mais complexos.
Estes sinais básicos são universais: aparecem em todas as escritas neumáticas de forma substancialmente idêntica, já que os acentos agudo e grave são essencialmente os mesmos em todas as escritas literárias.
Uma particularidade: o uncinus lorenês, forma local do punctum dilatado, é um sinal melodicamente abstracto, cujo significado, quer de som agudo, quer de grave, só ganha vida em referência a uma diastemazia incipiente, da qual é contemporâneo.
B. Os neumas especiais
1. O problema da nota de passagem (qüilisma, oriscus)
Dois sinais apenas não bastavam para descrever com precisão um movimento de três sons ascendente ou descendente: era, de facto, necessário repetir ou dois sons graves (punctum) ou duas notas agudas (virga). Para conferir uma verdadeira identidade à nota de passagem, recorreu-se a um sinal especial, que não era um sinal quasi-natural como os acentos agudo ou grave, mas um sinal convencional, embora se procurasse que fosse o mais “falante” possível. Estes sinais especiais derivam dos sinais diacríticos próprios da escrita literária: pontuação, contracção, elisão, abreviação; mas, justamente por causa do seu caráter convencional, não são idênticos nas diferentes escritas literárias e, portanto, terão forma diferente segundo as escritas neumáticas.
O qïilisma (nota de passagem ascendente, em grau débil) é anotado na grafia sangalesa sob a forma de ponto interrogativo, que figura nos manuscritos de Corbie da primeira metade do século VIII; na escrita lorenesa, por sua vez, é anotado mediante o ponto de interrogação que se encontra, no mesmo período, nos manuscritos de Tours. Alguns teóricos da música viram no qüilisma sangalês o sinal do “trilo”. Daí se presume que não conhecessem as outras escritas neumáticas; por exemplo, a notação lorenesa, que possui como sinal correspondente um pequeno semicírculo acrescentado abaixo da virga. O qüiilisma sangalês nem tão-pouco se equipara a um qüilisma “descendente” da notação francesa, no qual não se entrevê qualquer ligação com os sinais diacríticos da escrita literária. Este nada mais é do que o sinal “indeterminado” (cursivo) de vários sons, ritmicamente fluidos. A este qüilisma francês é difícil atribuir uma origem precisa entre os sinais diacríticos do texto literário. Além disso, deve-se assinalar que algumas fontes manuscritas não conhecem o qüilisma, como por exemplo nos manuscritos de Saint-Denis.
O oriscus (nota de passagem ascendente, em grau normal) provém do til, sinal de contracção ainda em uso nos nossos dias. Vem assinalado de várias formas, muitas vezes semelhantes, numa mesma escola escriturária: sangalesa, lorenesa, bretã. A notação bretã conhece apenas um sinal para a nota de passagem: o oriscus.
2. O problema do uníssono
Para exprimir o uníssono, muitas escritas neumáticas conhecem apenas a duplicação dos neumas gerais (punctum, virga), os quais perdem em tal caso o seu significado melódico (agudo, grave) em favor de um valor expressivo. A escrita sangalesa utiliza a virga, redobrada ou triplicada, com uma conotação de intensidade; quando, pelo contrário, quer expressar uma conotação de leveza, serve-se do sinal de elisão das escritas literárias: a stropha ou apóstrofo, que pode ser duplicada, triplicada, etc..
O oriscus, além do seu significado de nota de passagem, foi usado também para o uníssono nas escritas sangalesa, lorenesa e bretã.
O trigon, sinal de abreviação nas escritas literárias, é provavelmente o sinal mais convencional adoptado pela notação sangalesa para indicar duas notas em uníssono seguidas por uma terceira (e às vezes uma quarta) situada no grave. O sinal diacrítico não relembra minimamente o uníssono das duas primeiras notas.
C. Conclusões
1. Tudo isto induz a duvidar da clássica divisão dos sistemas de notação em «neumas-acentos» e «neumas-pontos». Todas as escritas utilizam os acentos (virga, punctum), ao passo que a multiplicação dos pontos parece dever-se a uma evolução dos sinais, os quais se desagregam, não mais para indicar uma nuance rítmica, mas ou com o fim de permitir uma diastemazia mais precisa ou para indicar certos contextos compositivos particulares (pretónicos).
2. Toda a notação neumática regional se caracteriza pela «economia do sinal». Algumas fontes manuscritas conhecem, por exemplo, uma só grafia do pes ou da clivis, etc. Outras notações, pelo contrário, como a sangalesa, dispõem de mais grafias para o mesmo neuma. Além disso, aos sinais gerais vêm atribuídos significados que classificamos como «derivados» e também «convencionais».


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